
O TFS fez dois anos na quarta-feira, dia 2 — e, no post de Instagram eu prometi que este ensaio seria uma retrospectiva menos lamechas, mas vamos ver o que consigo fazer nesse sentido.
Na verdade não sei há quantos anos começou esta história. Pensei que sabia, mas agora que me sento a escrever, as possibilidades multiplicam-se…
Talvez tenha sido, há dezassete anos atrás, quando aos 9 anos decidi que queria ser designer de Moda. Muito mais tarde percebi que o fundo, o âmago desse desejo, era, de facto, estudar Design de Moda.
Ou quase de certeza que foi naquele dia 11 de Março de 2011, quando fui à ModaLisboa | Lisboa Fashion Week pela primeira vez. Nesse dia senti algo único, que acho que nunca voltei a sentir tal mistura de sentimentos — felicidade imensa e medo, medo de não regressar… Não sei explicar, nem elaborar melhor.

Também pode ter sido no meu primeiro ano da faculdade, no final de 2017, quando a minha querida professora de História da Moda me disse que eu poderia ser uma boa investigadora de Moda. Aquilo ficou a ressoar dentro de mim… E, não me lembro se foi no próprio dia, talvez tenha sido alguns dias mais tarde…
Sei que estava a sair da faculdade, era já de noite e eu caminhava acompanhada até ao portão de umas das pessoas que será sempre das mais importantes para mim (mas que nunca se vê ao espelho no que escrevo, nunca se reconhece nas estórias que conto) e cuja opinião é das poucas que valorizo inestimavelmente — ao contar-lhe o que a professora me dissera responde com uma assertividade e calma, combinação que nunca lhe havia visto: “Eu também acho!”
Para a maior parte das pessoas a dissertação de mestrado — a tese — é só uma obrigação, algo que se tem de cumprir para terminar esse ciclo de estudo, mas eu sou escorpião, o que é sinónimo de intensidade. Portanto, desde o inicio da faculdade tinha uma ideia do que faria nessa tal tese — estudaria e exploraria a Moda inclusiva.
Até que um dia, não sei especificar como nem quando, muito menos sei pôr por palavras a minha linha de pensamento. Eu mudara, algo em mim mudara, já não era isso que eu queria. Agora percebo o que senti e daquilo de que me dei conta. Tomando emprestadas as palavras de Gloria Steinem tinha de escolher algo que deixasse de tal forma feliz e entusiasmada que fizesse esquecer as horas.

E, assim, quando o professor de projecto nos pediu para partilharmos qual o nosso tema eleito para a dissertação, eu disse que estudaria a importância da Associação ModaLisboa.
Ao longo do processo pensava, eu podia fazer isto para sempre — pesquisar sobre Moda independente do cluster lisboeta, relacionando-a com o Sistema de Moda. Tarefa que me deixa tão feliz e em puro êxtase como quem encontra um pote de ouro por detrás do arco-íris.
Só agora percebo que acabei por fazer o que a Gloria dizia ser importante que contássemos uns aos outros estórias e as nossas estórias. Visto na sua perspectiva, faz-me sentir que qualquer impacto conta independentemente da dimensão que o mesmo tenha.
É claro que são muitos os dias em que penso: “Mas que raio é que eu estou a fazer? Mas quem é que eu me acho? Que importância é que tem o que eu ando a fazer?”
Depois vejo que o The Fashion Standup é lido em 92 países e por mais de 1500 pessoas. Ao ver isso, vejo também que são quase tantas as pessoas do Estado de Nova Iorque, quantas as que me lêem em Portugal, o meu país natal. Sendo Gloria Steinem uma figura maior, em especial na cidade de Nova Iorque abraço-vos neste momento em que flores e cartas se aglomeram à porta do prédio onde vivia.

Para lá dos números e, do dinheiro ou a sua perspectiva que também têm a sua importância, a verdadeira importância está quando uma subscritora me diz que graças a mim ficou a conhecer o trabalho de um designer português; me escreve que um ensaio meu a fez repensar uma instituição como a Vogue; ou que fui um motor de inspiração da inclusão criativa de pessoas com deficiência física encontrarem o seu lugar na indústria da Moda.
Nunca pensei escrever, sempre achei que era um acto aborrecido e que eu não o fazia bem — não sou dotada no uso de pontuação; esqueço de palavras e letras; a minha mente é muitíssimo mais rápida que as minhas mãos.
Se tivesse sabido o futuro, teria uma e mil vezes estudado Design de Moda — deu-me mais do que posso quantificar, aquilo que me ensinou deu-me o meu completo ser e deu a Moda como uma descoberta e um mundo de possibilidades que só as disciplinas do Design e da Moda me poderiam dar.

O que segue? Continuar, com a certeza que um ‘9 to 5’ nunca seria para mim, que estou grata porque cada um de vós. Tentando neste terceiro ano de TFS dar-vos mais conteúdos com a densidade que merecem. Espero manter o diálogo com as vossas sugestões para lá da minha enorme teimosia de não esperar pelos algoritmos e me apresentar sempre primeiro.
Vemos-nos para a semana, no último book stack do Verão?
Falta dizer que se a semana passada referi a morte de Dolly Parton e da empatia que sinto por Miley, desta vez não falo/ escrevo o suficiente sobre Gloria Steinem porque é algo para mim com muito mais impacto e significado.
Já escrevi sobre esse mesmo intenso significado nas redes sociais e em Note de Substack, mas o ensaio… Esse ficará para mais perto da data daquele que seria o seu aniversário. E aí darei o meu melhor na investigação e na escrita para honrar a relação de Gloria com a Moda.

Deixo já aqui a nota, relativamente, às críticas de que muitas de nós estamos a santificar a Gloria Steinem e que ela não o merece, são opiniões. E a minha é que claramente um ser humano tem defeitos, e até santos devidamente canonizados também os tinham. Factualmente, os santos só fizeram o bem depois de mortos e a Gloria fez a sua parte para deixar o mundo melhor do que o encontrou.
E, não, não tornei o texto de aniversário do meu projecto sobre a Gloria Steinem, porque em última análise sem Gloria, sem o seu trabalho e contributo, não havia The Fashion Standup.
Até para a semana!
Com amor,
Vera Lúcia


