Book Stack #1: “In American Fashion: Ruth Finley’s Fashion Calendar”

Este ensaio, não é só um ensaio — é a primeira do nosso book stack de Verão. Um livro por mês, nos meses pelos quais as grandiosas férias de Verão das crianças e adolescentes costumavam passar — Junho, Julho, Agosto e Setembro.
Destes quatro fascículos só dois estarão disponíveis para todos. Para desfrutares de todas as edições, torna-te subscritor pago — por 5€/mês ou 50€/ano e podes cancelar quando quiseres, seja um mês depois ou depois do book stack terminar…
Começamos com o livro “In American Fashion: Ruth Finley’s Fashion Calendar” de Natalie Nudell,
Antes de mergulharmos a fundo, deixo-te uma citação que explica de forma tão simples e apurada a génese do Fashion Calendar:
“O formato inerentemente cronológico do Fashion Calendar, colocava eventos, tanto comerciais como sociais, com vista à justiça social e igualdade racial, dentro do autoritário cronograma da indústria de Moda Americana. A abordagem aberta e democrática de Finley fez da sua publicação o ponto de convergência dos calendários sociais de vários grupos que constituíam a comunidade de Moda.”
Esta abertura e inclusão por parte do sistema operativo do Fashion Calendar, sendo uma publicação que funcionava ao longo de todo o ano abarcava aqueles que mais tarde viriam a negar o calendário vigente no final dos anos 90 para a Semana de Nova Iorque ocorria entre o fim de Outubro e início de Novembro, sendo que a “rebeldia” mudaria as datas da NYFW para sempre.

Natalie conta-nos que tudo começara com o designer nascido na Áustria, que se sediara em Paris, mudando-se mais tarde para o Soho nova-iorquino — Helmut Lang. Lang apresentou a sua colecção para a Primavera de 1999 a 17 de Setembro de 1998, querendo apresentá-la antes das semanas de Moda europeias.
Segundo a autora do livro em que nos focamos e directora do FCRD - Fashion Calendar Research Database, este passo estratégico do designer foi precedido pela abordagem ao seu desfile anterior:
“Em 1997, Helmut Lang, o designer austríaco de nascimento que, regularmente, participava do cronograma parisiense, muda o seu negócio para a Wooster Street no distrito nova-iorquino do Soho. Lang era um rebelde da Moda, desafiava convenções e experimentava com novos formatos e tecnologias. O seu primeiro desfile em Nova Iorque foi abruptamente cancelado e substituído pelo primeiro desfile digital. Um vídeo pré-gravado que foi enviado aos convidados num CD-ROM, acompanhado por um lookbook.”
E, ainda que tal não afecte o ponto central do livro protagonista deste fascículo — a estória e legado de Ruth Finley, o desfile de Lang foi o primeiro desfile digital da Moda Americana e não o primeiro a nível mundial. Já no dia 12 de Dezembro de 1996 a ModaLisboa — Lisboa Fashion Week cria o primeiro desfile em todo o mundo, através da “transmissão pela internet” (o que escrevia o jornal da época) do desfile do concurso de jovens designers Sangue Novo.
Talvez penses que este seja um parêntesis demasiado grande, mas se não houvesse um fio vermelho por entre as linhas e palavras deste ensaio que nos ligasse à Moda Portuguesa — isto não era o The Fashion Standup.
O mais cativante sobre este livro é o facto de Nudell conseguir fazer transparecer o carinho e admiração que sente por Ruth e pelo seu trabalho, tendo ainda assim um cariz académico. Admiração essa que terá vindo da proximidade com Finley durante a produção do documentário “Calendar Girl” (2020), do qual Nudell foi escritora e produtora.

Ruth não foi apenas resiliente, foi bem mais do que isso, foi pioneira, na mistura de factores que marcaram a sua biografia. Que factores?
Apesar de ter nascido em 1920, estudara e fundara o Fashion Calendar antes de casar, tendo sempre o apoio dos seus pais. A sua energia e estamina não eram só impressionantes como nonagenária, mas desde jovem, especialmente na sociedade de então.
Enquanto estudava, trabalhara como arrumadora de teatro na Broadway, para ganhar dinheiro para os gastos quotidianos — aquilo a que nos EUA se chama de pocket money. Mas quando se trata de Moda, todas as experiências informam a prática da mesma. Para entender como é dita experiência da Broadway teve impacto no seu destino importa atender ao facto de que estudara jornalismo e nutrição no Simmons College. Período durante o qual, no Verão, Ruth estagiou com Eleanor Lambert — “mãe” da Semana de Moda de Nova Iorque e do Met Gala.
Foi então que a experiência na Broadway se manifestou em termos de Moda. Finley apercebeu-se que os eventos da Moda se sobrepunham e andava tudo meio perdido — eram os anos 40 do século XX, ou vinha no jornal ou havia um almanaque, ou então como se sabia o que ia acontecer?
Para Finley era claro que a Moda precisava de uma clearing house, digamos que se trata de um centro de coordenação. E, assim, em conjunto com as irmãs Hughes, Alice e Frances, vinte e um e catorze anos, respectivamente, mais velhas que Ruth, fundou o Fashion Calendar.
Poucos anos mais tarde ver-se-ia sozinha à frente do lema do Fashion Calendar, nunca cedendo. Mesmo depois de: um divórcio, numa altura em que tal era tabu para a mulher; ter reencontrado o amor e de ter enviuvado. Fica com três filhos a cargo, dois do primeiro casamento e o terceiro da segunda união; sem esquecer o primogénito, o Fashion Calendar.

Obviamente, se quiseres conhecer todos os detalhes, há que ler o livro. Se tal como gostas de ler não só em papel, mas também em digital, podes ler “In American Fashion: Ruth Finley’s Fashion Calendar” na biblioteca digital Perlego — foi o que eu fiz (é só uma dica, não um link afiliado).
O exemplo de Ruth tem muito a dizer ao panorama de Moda actual. Não deixou que a sorte fizesse o destino do seu negócio, quando ainda trabalhava com as irmãs Hughes, não ficavam à espera que os clientes aparecessem por milagre — eram as próprias que angariavam os seus subscritores por telefone.
Quem disse que a missão não podia ser negócio? Sim, as subscrições não são uma coisa de agora. Ruth cumpria a sua missão de ser a organizer máxima da Moda americana, ao mesmo tempo que geria o seu projecto como um negócio — para que este fosse financeiramente auto-sustentável e que pudesse pagar o seu próprio trabalho e viver daquilo que fazia.
Não que fosse gananciosa de todo, muito pelo contrário. Ainda que a listagem no Fashion Calendar estivesse sujeita a subscrição obrigatória ou ao pagamento de uma taxa única, Ruth abria várias excepções. Essas excepções tinham a premissa de que ajudando quem estava a começar, a visibilidade conferida pelo FC, iria permitir-lhes ter sucesso e pagar-lhe a listagem de um segundo evento.
Foi o caso do seu amigo de toda uma vida Bill Cunningham, que antes de ser fotógrafo tivera um projecto de chapelaria e Ruth oferecera-lhe a listagem do seu evento.
Uma mulher que viveu nos seus próprios termos. Não escalando o seu negócio mais do que o necessário, sendo durante anos a fio uma operação de uma só pessoa. Decidindo como e quando ceder e dar as rédeas do seu legado.

E, sabendo, destacar-se — afinal a capa e as páginas do Fashion Calendar eram cor-de-rosa.
Porque escolhi este livro?
Porque mesmo sabendo que a nossa indústria está longe de ser perfeita, existem estórias que nos recordam porque amamos a Moda de forma tão visceral. Sim, a Moda pode discriminar a idade, na sua cara visível ao público — estando isso cada vez mais a mudar. Mas a estória de Ruth prova que a idade não é factor nas suas engrenagens.
Hoje, apesar de todos os movimentos feministas, o mundo ainda gira em torno do dinheiro dos homens. Na Moda temos três homens a desejar que as mulheres comprem os produtos dos seus monopólios de marcas — Bernard Arnault, François-Henri Pinault e Amâncio Ortega. E, ainda assim, a estação de controlo da Moda Americana, durante décadas o mercado mais relevante do globo, manteve-se independente e detido por uma mulher.

E, por último, porque existem estórias como esta que devem ser lidas, relidas e amplificadas — muito mais do que breaking news sobre a Shein como media de Moda de renome fizeram há bem pouco tempo.
Espero ter-vos inspirado para o início de mais uma semana.
Até para a semana!
Com amor,
Vera Lúcia


