Fashion Mentor: A Maior História de Amor da Moda
À melhor mentora do Mundo, A minha.
Sei que os programas de mentoria são de vital importância numa carreira em Moda. Ainda assim, não acredito que um mentor se limite a um programa determinado ou ao match de mentores e mentees por parte de terceiros.
E, apesar de muitas pessoas poderem influenciar a minha perspectiva, as minhas preferências ou até ajudar a formular as minhas opiniões, para mim o lugar de mentora só pode ser ocupado por uma única pessoa. Não obstante, um mentor, no caso, uma mentora terá sempre mais protégés.
Para mim, a minha mentora é como uma madrinha em esteróides. O simples facto de desde cedo ter tido o privilégio de ir absorvendo as pequenas golden nuggets de ensinamentos, da sua parte, deu-me consciência. Consciência de onde estou, de quem sou, para onde vou.
Importa começar pela minha experiência, para validar a afirmação de que uma verdadeira relação de mentoria, para a vida, que tenha real impacto é uma história de amor.
Esta forma de amor como amizade pode também ir para lá das linhas do tempo, por exemplo Sara Sozzani Maino disse em entrevista recente que a sua tia Franca Sozzani continua a ser sua mentora até hoje.
Prada, Vogue e outros mitos…
O Diabo Veste Prada é, talvez, o maior mito urbano da Moda. Não uso esse como o exemplo de capa, porque acredito que não é o facto de se trabalhar com alguém, normalmente, numa posição hierárquica que faz da pessoa com maior poder automaticamente um mentor.

Ou seja, na minha perspectiva a relação de mentoria pode ter vários estilos, silhuetas, dinâmicas…
Fora do ecrã, a Vogue alimenta o storytelling de que Anna Wintour é a mentora de Chloe Malle. Uma narrativa rentável que gera cliques, mas que muito provavelmente não passará da continuidade de uma relação de chefia.
Digo-o porque para o ensaio “É Chloe Malle, não é nova Anna Wintour” usei como uma das principais fontes bibliográficas o Instagram da própria Chloe e, ainda que seja perceptível a grande admiração que tem por Anna, nada aparenta uma relação mais próxima, que toque o emocional ou emotivo.
E importa lembrar que a Vogue tem um largo historial de substituições das chefias, cargo que, até finais do ano passado se denominava “editora-chefe”.
Portanto em 1963, Diana Vreeland substitui Jessica Daves, Grace Mirabella haveria de substituir Vreeland em 1971. A própria Mirabella sairia do cargo para dar lugar a Anna Wintour em 1988. E, como temos presente, com efectividade neste 2026, Wintour extingue o seu próprio cargo original para que Malle lhe suceda sem lhe suceder.
As biografias de Anna Wintour não lhe apontam qualquer mentor ou mentora, tendo sido a sua ambição última definida pelo seu pai. Quando ao preencher um questionário escolar Anna perguntou ao pai — também editor de renome — Charles Wintour (mentor de Suzy Menkes), o que deveria responder à pergunta “o que queres ser quando crescer?”. Ao que o pai terá dito “escreve editora-chefe da Vogue”.
Quem é quem?
Sara Sozzani Maino conheceu a sua mentora desde o berço — a sua mentora é a sua tia, a icónica Franca Sozzani. Tia e sobrinha trabalhariam juntas durante 22 anos. Repara que eu usei o verbo “ser” anteriormente no tempo presente, ainda que se assinale este ano uma década da morte de Franca, mas foi a própria Sara que afirmou, recentemente em entrevista à WWD o seguinte:
“Ela foi a minha mentora e continua a sê-lo.”
Já no caso da mãe de Sara e irmã de Franca — Carla Sozzani — os seus mentores foram Anna Piaggi e o marido de Piaggi, o fotógrafo Alfa Castaldi. Dava Carla os primeiros passos na Moda como carreira profissional quando tinha então apenas vinte anos.

Pouco mais jovens seriam Stella McCartney ou a Simone Rocha, em anos distintos, quando conheceram a sua mentora — Louise Wilson, professora na Central Saint Martins. Também Kim Jones considera Wilson a sua mentora e a lista podia continuar, tendo Louise influenciado o percurso da grande maioria dos alunos de Moda da CSM durante toda a sua carreira docente, mesmo não sendo professora destes designers em formação.
Londres, Primavera de 2006 — estes são os dados biográficos de “Style Bubble”, o blog que Susanna Lau aka Susie Bubble fundou com apenas 22 anos. Quando conheceu a sua mentora, ao certo, não descobri, confesso. O que sim encontrei foi um artigo da Dazed de 2013 intitulado “Susie Bubble in conversation with Diane Pernet”. Para lá de ser mencionada, a relação entre ambas dá-nos food for thought naquele que é o legado que trouxe a Moda até ao Substack:
“Como seriam as vidas de Susie Bubble e da sua colega bloguer Diane Pernet sem a internet? Diane é considerada uma pioneira do live-blogging e das redes sociais; foi uma das primeiras pessoas a fazer posts directamente dos desfiles a partir de um telemóvel, quando os smartphones ainda não existiam. Isto teve obviamente uma enorme influência em Susie, que estava a dar os primeiros passos na altura, e ainda hoje Susie aponta Diane como uma das suas mentoras.”

Aos 19 anos, um jovem Yves Saint Laurent começa a trabalhar na Maison Dior. Christian Dior, então com 49 anos, torna-se seu mestre e mentor. Três anos mais tarde e de forma inesperada morre monsieur Dior, como é amplamente conhecido — Yves seria o seu sucessor.
Uma mudança repentina, sem guia, sem mentor… Corria o ano de 1957, paparazzi ainda não era profissão, mas muitas são as reproduções da fotografia de um rapaz cabisbaixo, sozinho à porta do edifício onde se realizaria o velório. Talvez se não tivesse perdido tão cedo o seu mentor à sua vida pessoal tivesse sido um pouco menos conturbada.
E tal não teria que querer dizer que não fundasse a sua marca YSL. Hubert de Givenchy abriu o seu atelier no número 3 da Avenue George V, o atelier de Cristóbal Balenciaga era no número 10 e não foi coincidência. Com esta localização Hubert só tinha de atravessar a rua para encontrar o seu mentor.

De prestígio em tenra idade à chegada em idade mais madura ao estrelato — uma temática que prometo desenvolver num ensaio futuro. De que é exemplo Daniel Roseberry, que tomou as rédeas da Schiaparelli aos 33 anos. Roseberry estava desempregado aquando da abordagem da Schiaparelli, tendo anteriormente trabalhado durante mais de uma década na Thom Browne. Não obstante, numa entrevista à System Magazine, em 2022, afirmou que Thom era, sem sombra de dúvida, o seu mentor como designer de Moda.
Foi também à System Magazine que Christopher Bailey, que esteve ao leme da Burberry de 2001 a 2018, falou da sua mentora — Donna Karan.
Voltando a alumni da Central Saint Martins, relembremos Alexander McQueen e a sua mentora Isabella Blow — conheceram-se em 1992. A sua forte amizade foi marcada co-dependência emocional tóxica.

Relação muito mais saudável foi a de André Leon Talley com a sua querida Mrs Vreeland, que André definia como uma das pessoas que, a par com a sua avó que o criou, fizeram dele o homem que era. Nas largas dezenas de vezes que é possível ler na memoir de ALT — The Chiffon Trenches — “Diana Vreeland” ou “Mrs Vreeland”, a emoção ultrapassa as palavras e as lágrimas parecem visitar quem lê, neste caso, eu. Aqui não falo em datas propositadamente — tal como Sara e Franca, o amor de Diana e André também viverá para sempre.
Porque é então a mentoria em Moda uma love story?
Porque acontece, não é forçado, é como o fio vermelho do destino, é químico, de forma análoga a um romance.
Não depende de se trabalhar em conjunto, no mesmo local, na mesma equipa, de forma hierárquica… Muito menos de presença física ou de frequência desta.
Se não consigo explicar o que é e, apenas aquilo que não é. Talvez seja esta a verdadeira magia da Moda.
E tu, também tens uma fashion godmother? Se quiseres partilhar com a comunidade do TFS, podes comentar no Substack. Caso respondas a este e-mail estás a partilhar só comigo.
Fico à tua espera!
Com amor,
Vera Lúcia



