Dicionário de Estilo, Manaia sobre Manaia

Hoje falamos de “Dicionário de Estilo”, ainda que o título nos faça pensar num objecto — o livro, trata-se da rubrica televisiva da autoria de Tiago Manaia.
Não posso deixar de mencionar o seguinte fun fact eu e o jornalista, reconhecido pelo seu trabalho na área da Moda em publicações como a Revista Máxima e Vogue Portugal e, ao Lux Frágil e ao arquivo da icónica discoteca lisboeta partilhamos o mesmo invulgar apelido — Manaia. E confirma-se esta raridade associada ao apelido, na Geneanet só existem 202 pessoas registadas tendo Manaia no nome, já para o Mendes, o meu verdadeiro último nome (tendo eu dois nomes próprios e quatro apelidos torno-se cármico que tudo o que escreva tenha muitas palavras), contam-se 138 503 registos.
Mas não estamos aqui estamos aqui para falar de Moda e não de genealogia, portanto vamos ao que interessa… E o que nos interessa hoje é o “Dicionário de Estilo”.
A Revista Máxima nasce em Portugal em 1986, tendo como primeira editora-chefe a jornalista Maria Antónia Palla. Seguiram-se o lançamento de Marie Claire em 1988 com a icónica jornalista Maria Elisa Domingues e da edição portuguesa da Elle em 1989 que teve como primeira editora-chefe a a também jornalista Margarida Marante. Bem, falaremos das primeiras revistas de Moda em Portugal e de como a ModaLisboa criou um “boom” para o Sistema de Moda por terras lusas, já que na imprensa dos anos 80 e 90 se podem ler referências a estas publicações como “revistas femininas” e não de Moda, noutra ocasião e com toda a dedicação.
Este “toca e foge” que fizemos anteriormente serve para iniciarmos o enquadramento da Revista Máxima, que se despedira das edições regulares em papel com a edição de Junho de 2020. Em 2023, para comemorar os 35 anos da publicação, a Máxima volta às bancas para uma edição especial em papel que se tem vindo a repetir anualmente, continuando o website a publicar diariamente. No final do ano seguinte o grupo que tem a revista reestrutura-se, passando Cofina a Medialivre, surgindo pouco mais tarde um novo canal na TV por cabo, o Now. E, como efeito matriosca é neste canal que aos sábados de manhã é transmitido, por temporadas, o programa da Revista Máxima. É dentro deste programa que encontramos a rubrica de Tiago, “Dicionário de Estilo”.
Acima de tudo, Tiago Manaia dá-nos uma masterclass de construção de narrativa. Uma narrativa que não termina no fim de cada edição do segmento, é intricada, mas bela — como um tecido, tecido manualmente em tear manual. Não nos é contado logo tudo de uma leva, temos marcas, personalidades e designers que nos acompanham semana após a semana.

Um formato para televisão, mas que vai para lá daquela que será sempre a “caixa mágica”, é um formato abraçado pelas redes sociais tendo assim diversos públicos. O público que vê televisão, vê o canal e seguindo a programação acaba por apreender sobre Moda, mesmo não se interessando por Moda. Havendo também quem procura o programa no seu todo como o magazine televisivo que é.
Ou ainda as pessoas que pessoas insiders, apaixonadas por Moda e quem em volta deste Sistema e comunidade orbita, todos estes acompanham o segmento televisivo somente, mas com dedicação, devoção até e como reels de Instagram.
Eu, inserindo-me neste último grupo, vi e revi todos os reels em maratona para te escrever…O que ficou claro para mim foi que, todos os clipes juntos e se tivessem sido produzidos nos EUA seriam um documentário badalado de uma das afamadas plataformas de streaming.
Também, face a este ensaio especificamente, tu que me lês estarás num determinado tipo de público. Se me lês em inglês (refiro-o primeiro por ser o idioma deste Substack com maior número de subscritores) e não entendes português europeu, este poderá ser o teu único contacto com o “Dicionário de Estilo”, o que é uma grande responsabilidade para mim. No caso de estares a ler em português, provavelmente, já és devoto deste documento de Moda vivo e pulsante. Pode, ainda assim, dar-se o caso de, quer lendo em inglês quer em português e compreendendo português falado, que nunca tenhas visto nem uma entrada deste fascinante documentário e que eu te desperte curiosidade.
Em nunca mais de 4 minutos, o mais extenso, se não estou em erro, é o dedicado a David Lynch com três minutos e meio, lembra-nos do poder da Moda. O poder da Moda: de ser insubmissa; de reclamar contra o que não é justo; de chocar e assim mudar mentalidades e ter impacto real e positivo. Não ignorando os muitos defeitos que a Moda tem. A Moda demorou muito tempo a deixar de alinhar em práticas racistas para contribuir para o anti-racismo. Assim como a mudança de direcção que começa agora a ter em relação ao idadismo.

Voltamos várias vezes a Kate Moss, a Alex Consani ou a Maria Antonieta, mas nunca de forma repetitiva. E, quando ainda estamos a pensar na genialidade da associação de Shalom Harlow no desfile da colecção Primavera/ Verão ’99 de Alexander McQueen com Bella Hadid no desfile da colecção Primavera/ Verão 2023 de Coperni que atravessam, de mãos dadas, várias temáticas para lá de “Performance”, ficamos ainda mais boquiabertos. Porquê? Haverá maior piscadela aos super nerds da Moda do que relacionar os filmes “O Diabo veste Prada”(2006) e “Qui êtes-vous, Polly Maggoo?” (1966)?
Omnipresente é a importância das convicções que a Moda, que como colectivo construímos, actualmente partilha: o feminismo; os direitos e o pride LGBTQIA+; a defesa da democracia e do anti-fascismo. Convicções essas que são feitas acção por corpos diversos, cis ou trans, com diferentes tipos de eficiência e num espectro vasto de tons de pele.
E, se no meio de todo o buzz, dizermos a verdade? Não se trata de certo ou errado, nem de início ou de fim, mas de climax. É o climax o facto de John Galliano estar a trabalhar para a Zara. São dois anos, não é uma colaboração passageira, com as da H&M com diversos designers que tiveram início com Karl Lagerfeld.
Ao ver “Dicionário de Estilo”, como um todo e não como a parte, o teu intelecto fica de tal forma inebriado de prazer que o teu sistema de recompensa dopaminérgico está mais iluminado que as aldeias natalícias dos romances kitsch. Que ousadia absolutamente fascinante termos Anna Wintour na entrada de dicionário “Snob” e mais tarde em “Rugas”! Sendo o primeiro caso mais do que falado, mas poucos são os que enquadram o aparecimento de Anna Wintour e Meryl Streep na capa da Vogue, com factos da nossa sociedade idadista — duas mulheres de 76 anos, que independentemente do que terceiros possam pensar não colocam ponto final nas suas carreiras. São vistas e deixam-se ver.
Do “Drama” à “Rotina”, de “Brat” a “Marinheiro” e de “Abismo” a “Lirismo” — qual será o próximo tema escolhido por Tiago a seguir?
Não vou tentar adivinhar, nunca acertei quando tentava adivinhar o tema de cada edição da ModaLisboa — Lisboa Fashion Week, ao ser revelado o tema revelava-se também para mim que o meu palpite era completamente ao lado… O que sim, te posso garantir é que esta não será a primeira e a última vez que falamos do “Dicionário de Estilo”… Aqui voltaremos!
Ficou ainda tanto por dizer…
Até para a semana!
Com amor,
Vera Lúcia





