ModaLisboa Pebbling - Ensaio nº 2
Sábado e Domingo

Aqui vamos nós falar da Semana de Moda portuguesa. Tal como afirmei em ModaLisboa Pebbling | Lisboa Fashion Week - Ensaio nº1, continuarei a citar os próprios criadores, uma vez que essa caixa de ressonância é necessária.
Portanto neste segundo ensaio irei inspirar-me nas teorias de Roland Barthes de como a Moda comunica — a que vou chamar de mensagem Moda.
A Moda envia mensagens de significado, mas estes significados têm um ponto de origem e um ponto de interpretação.
Quem a envia tem uma intenção, quem recebe tem uma interpretação. Por norma, esta teoria aplica-se ao estilo pessoal, à expressão identitária de quem veste o próprio corpo. Não obstante, aqui iremos aplicá-la ao amigo primeiro da Moda — as semanas de Moda, nomeadamente, a apresentação de colecções.
Portanto vou citar uma parte da intenção de quem envia a mensagem Moda — o designer. Assim como da interpretação de quem recebe a mensagem Moda — quem assiste ao desfile, neste caso a vossa Substacker de Moda portuguesa favorita, eu.
Mas já lá chegaremos…
Bárbara Atanásio

“Não é conselho nem cuidado, é correção. O corpo corrigido antes de falar, o gesto travado porque ‘te fica mal’. Pináculo da ortofrenia no habitat do território do desvio.”
Bárbara Atanásio dá continuidade à exploração de temáticas que normalmente associamos às mulheres, mas que aborda de uma perspectiva feminista de desmantelamento da masculinidade tóxica.
Em termos formais, considero que a jovem designer alargou o seu léxico de volumes e silhuetas.
Arndes

“Uma coleção não é um tema, é um percurso. O processo é o movimento que conduz aos resultados. A experimentação é a sua base. As decisões são tomadas com critérios conscientes e intencionais, atravessadas por contaminações subjetivas e inconscientes. Diferentes materiais inspiram formas específicas. Disto nasce aquilo. E o resultado reconfigura-se para dar corpo ao que faz sentido.”
Arndes continua o seu percurso de diálogo com os próprios materiais e formas, muito mais do que conceitos abstratos, de uma coerência e maturidade criativa admiráveis.
Durante o desfile fotografei freneticamente, porque já que The Row é hot topic Substack e por pouco profissional que possa soar pensava: “A Arndes é muito melhor que The Row, o Substack vai adorar!”
Gonçalo Peixoto


“Estamos em 2026 e temos mais perguntas. E há quem diga que temos mais respostas. Que o ChatGPT é a resposta. Que a inteligência artificial é a resposta. No campo oposto, há quem diga que não há respostas na inteligência artificial e que o mundo se tornou mais duvidoso. Esta coleção FW 26/27 procura questionar a nossa existência dentro deste conflito.”
Este é o conceito de Gonçalo Peixoto, mas penso que o mesmo terá estado mais vincado no pórtico e nos adereços evocativos de escritório on brand do que na própria colecção.
Apesar do designer saudar os anos 2000 na memória descrita, facilmente veríamos estas silhuetas nas produções de Hollywood dos anos 30. Já no look 12 encontro um quê suffragette de início do século XX. E consigo, facilmente, imaginar Josephine Baker a dançar envergando o look 31.
O que é, sim, certo dizer, é que ao juntar o amalgama de perguntas que fazemos e das respostas fragmentadas que a AI nos dá — Gonçalo Peixoto explorou novos territórios.
Ricardo Andrez


“Skinny Dreams, a coleção FW 26/27, tenta questionar quem somos verdadeiramente, o que criamos, o que deixamos para trás e o que transportamos enquanto projetamos o futuro.”
Tenho de confessar que foi complicado domar o meu cérebro para lá do “Quero isto! | Este look não é tanto o meu estilo. | Será que esta peça me ficaria bem?”
Calado o meu cérebro que adorou todos os looks em azul Klein, tendo feito um enorme esforço para não me deixar levar exclusivamente pelo meu gosto pessoal.
E, há que dizer que Andrez alcançou algo extremamente e consequentemente impressionante, inovar em silhuetas, cores e formas, continuando a ser Ricardo Andrez, continuando a sentir-se o ADN da marca.
DuarteHajime


“Backbone Tour, colecção FW 26/27 de DuarteHajime, inspira-se no ciclo de vida caótico, sedutor e transitório de uma banda de rock em digressão, captando a energia crua que existe entre o silêncio da caravana e o ruído intenso da multidão em concerto.”
Não posso esconder que fiquei contente por Ana Duarte cortar com a inspiração mitológica explorada nas últimas estações, ainda que as extensas narrativas não afectassem o consumidor final no sentido da sua receptividade das propostas apresentadas. Do meu ponto de vista, ter toda a narrativa em mente ao ver o desfile era um exercício complexo.
Já este foi um exercício mais grato, pude ver para lá da vasta conceptualização da marca. Ao ver as propostas de Duarte para o Outono/Inverno 2026 lembrei-me das colecções de Outono/Inverno 2011 de Ana Salazar e de Alves/Gonçalves.
E, graças a DuarteHajime e a esta linha de pensamento, percebi que este exercício de paralelismo da actualidade da Moda portuguesa com a sua história recente deve ser feito de forma mais propositada. Não pelos designers, mas para os designers e futuros designers.
Luís Onofre


“1938, The Recode (…) revisita os arquivos desde 1938 e recodifica a sua herança através de tecnologia contemporânea. Inspirada nas décadas de 30 e 60, cruza memória e inovação, tradição e engenharia.”
Quando se trata de um desfile de sapatos receber essa mensagem é complicado, temos de ver os pés das manequins, quer seja directamente ou por meio dos ecrãs na própria sala de desfiles.
Podia dizer-te que apreciei a pureza das linhas e a escolha do tom de vermelho em opções envernizadas. Mas confesso que tenho de ir estudar sobre sapatos, mas a fundo — para deixar de os apreciar como o objecto e encará-los como calçado que são.
Nuno Baltazar


“I Do! Do you? (The other side) integra a colecção #NBB01 e apresenta uma parte da primeira linha Nuno Baltazar Bridal. A proposta estabelece uma rutura consciente com os cânones tradicionais da Moda nupcial. Partindo dos padrões estabelecidos de forma, cor e simbolismo, a colecção explora novas narrativas estéticas e identitárias, onde o vestido deixa de ser apenas um símbolo de tradição para se tornar um manifesto de questionamento, individualidade, contemporaneidade e liberdade criativa.”
Penso que este foi o desfile de que mais falei durante o livestream pós-ModaLisboa, principalmente na questão da iluminação como paralelismo e integração da parceria com a FujiFilm. Mas avancemos que com a extensão deste ensaio estou a arriscar-me a perder a tua atenção.
Se apesar de não estar nos planos casar-me, e de o desfile não ter mudado esta opção, gostaria e desejaria vestir uma peça Nuno Baltazar Bridal? Claro que sim!
De que referências me lembrei durante o desfile?
De Martin Margiela, devido à forma como os véus cobriam a cara de algumas manequins.
Do editorial da Vogue Italia, sob o comando de Franca Sozzani, de Abril de 2014, que tinha como tema a violência doméstica. Mas porque num desfile bridal me lembrei disto? Primeiro, os detalhes a vermelho — as luvas e as collants. Depois devido às dúvidas vocalizadas por estas noivas. E, por último, em Portugal, um país com menos de 11 milhões de habitantes, no ano passado morreram 24 mulheres vítimas de violência doméstica.
Luís Carvalho


“Afterimage (…) nasce num território silencioso entre aquilo que se foi e aquilo que se recorda ter sido — um espaço onde o tempo desfoca contornos e onde as memórias se reinventam entre o real e o imaginado. Nem sempre nítidas, muitas vezes distorcidas, as recordações surgem como fragmentos emocionais que regressam com novas formas e novas leituras.”
A Moda tem a capacidade de ser poética, de suspender o tempo e de nos colocar intensamente no momento presente. Foi exactamente isso que aconteceu ao vermos a beleza dos traços de alfaiataria de Luís Carvalho enquanto ouvíamos:
“Ainda te lembras de mim? Ainda sabes de onde eu vim?
Quem sou esta que aqui estou?”O que sabemos é que esta que aqui está — a ModaLisboa, veio do esforço dos pioneiros, que não se limitaram a criar para si mesmos, mas criaram com amor… Amor suficiente para criar algo que servisse os outros, que fosse o berço criador da criatividade de outros — de um país inteiro.
Não obstante, porque não uma reflexão? O que se pode inferir deste exercício das mensagens Moda que aqui apliquei? Que as interpretações que se fazem daquilo que os designers apresentam advêm do capital de referências de quem recebe ditas mensagens.
Para a semana, espero trazer-te este tipo de ressonância aplicada ao(s) fashion month(s) antes, durante (e depois?) da Lisboa Fashion Week. Cá te espero — no The Fashion Standup.
Até para a semana!
Com amor,
Vera Lúcia


