Reflexões (meio) desconexas de uma dieta de podcasts de Moda
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Hoje, vamos falar de som, o som da Moda. Começo a escrever-vos no momento em que, com o computador no colo (para mim a posição mais confortável para maratonas de escrita) na sala de estar, tiro o som à televisão.
Pode parecer um contra-senso, mas não é. Ora, sem 25 de Abril de 1974, sem Revolução dos Cravos — ah e já agora os cravos eram vermelhos — eu não seria quem sou e muito menos poderia existir Sistema de Moda em Portugal.
Assim que optei por não ouvir o lunático que usa fatos mal feitos, anda para arrancar as mangas aos casacos de tanto gesticular num frenesim sem fim e que pretende trazer a ditadura de volta.
Coincidentemente, por estes dias, os sons do dia primeiro e primordial da nossa Liberdade foram considerados Tesouro Nacional Português.

Felizmente, continuamos a viver em Democracia, portanto desfolhemos o tema deste ensaio.
Em termos dos nossos cinco sentidos — visão, audição, paladar, olfato e tacto — temos tendência a estratificá-los, qual deles consideramos que tem mais relação com a Moda. Ainda que vistamos e usemos a Moda sob o nosso corpo — táctil, portanto — tendemos a pensá-la intrinsecamente como visual. Cogitamo-la, facilmente, ainda como olfativa desde a linha “Les Parfums de Resine” (1911) de Paul Poiret, a que seguiria o perfume mais vendido do mundo — Chanel nº5 (1921).
Mas Moda auditiva? Moda que se ouve? A resposta está nos podcasts de Moda.
Daí que o meu trabalho esta semana tenha sido uma dieta de podcasts de Moda — basicamente, a grande maioria da informação e conteúdos que consumi sobre Moda esta semana foram podcasts.

Não te vou falar de cada um, ou de cada episódio (para usar a terminologia correcta), mas sim sobre o que retirei e me foi permitido reflectir ao fazer este exercício.
Sabes que tenho tendência a ser demasiado ambiciosa com o meu trabalho — a listening list que fiz, encarando-a agora parece-me infindável. Portanto o material de estudo foram dez podcasts, metade deles portugueses, porque sem Moda portuguesa esta newsletter não seria o The Fashion Standup.
Comecei a ouvir podcasts há mais de dez anos e é impressionante como é um meio de media que não foi mera trend. Não obstante, noto que nos últimos dois a três anos o léxico no campo de podcasts de Moda foi diminuído.
Um novo media, aparentado à rádio, que sempre me fascinou quando aplicado à Moda, uma vez que como não estamos a visualizar acabamos por pensá-la e teorizá-la, idealmente de uma forma mais profunda. Daí que todas as imagens presentes nas colagens que emolduram este ensaio têm como objectivo remeter-te também para esta relação e o sentido da audição.

Havendo algo que se perpetua, neste contexto: o défice de podcasts de Moda portugueses.
Como se comprova pela lista abaixo, existem, mas ficam aquém para a dimensão, diversidade e características específicas do cluster de Moda de Lisboa. Agora, sim, vamos às reflexões em forma de fragmentos textuais.
A Moda de autor é intrinsecamente sustentável, não querendo isto dizer que o ensino de Moda não continue a evoluir neste sentido. Num momento em que a sustentabilidade já não é uma disciplina separada das restantes nos currículos educativos, sendo transversal a tudo o que se ensina aos alunos de Moda.
Durante muitos anos se contou a estória da “Democratização da Moda” como sendo essa a face boa da moeda da fast fashion. No entanto, questiono-me se a verdadeira Democracia da Moda não é aquela que é feita com sentido de missão e que a torna possível para outros. A abertura de um Sistema novo, que antes de dito era inexistente.
E, por democratização, na sociedade democrática portuguesa, de modelo socialista, ficam ainda heranças de outros períodos históricos em termos do poder dado às médias e grandes empresas, de que é exemplo a indústria. Esta realidade na Moda apresenta-se pelo direccionar de apoios governamentais e estatais à indústria da Moda e, ainda que possa parecer que se trata da Moda no seu todo, falta a parte do ser — porque fica-se só pelo parecer.

Apoia-se a indústria, que produz, que manufactura — não se apoiam os designers.
Não obstante, a Democracia é uma construção diária e infindável que precisa de Moda e de Criatividade.
No convulso mundo, em que, por estes tempos, muito se fala do impacto negativo que os elevados preços do imobiliário, praticados tanto na Europa como nos Estados Unidos, têm na compra ou arrendamento de casa própria por parte de Gen Zs. Não obstante, em cidades altamente turísticas como Lisboa, ditos preços afectam também, negativamente, os designers de Moda de autor.
Como? Na medida em que ditos preços tornam proibitiva a existência de pontos de venda próprios da marca.
Podia argumentar-se que, em pleno 2026, é mais fácil abrir uma loja online. E, a verdade, é que a barreira da impossibilidade de tacto, nesse contexto, cada vez se colmata com maior facilidade.

Ainda assim, a Academia é uma torre de marfim. Mas a diferentes níveis consoante a geografia. A educação de Moda em Portugal, ainda que procure ser o mais aproximada à realidade possível, não deixa de ser uma ficção. Não obstante, o ensino para o empreendedorismo de Moda começa a ser introduzido.
Surpreendentemente, o fundador do The Business of Fashion partilha que a grande pedagoga de Moda, histórica professora da Central Saint Martins, lhe dissera em entrevista que não considerava que os alunos de Design de Moda deviam ser leccionados sobre business…
Se já lêem o The Fashion Standup provavelmente já sabem que não sou adepta de escrever conclusões. Acredito que a tentativa e erro deve ser uma constante na Moda — assim como devemos impulsionar o nosso próprio percurso.
Já todos sabemos a estória de Andy Sachs, mas e a de Marley Marius? Marley é, actualmente, editora senior da Vogue. O seu primeiro cargo? Assistente de Anna Wintour. O facto de trabalhar na Vogue não é, de todo, falta de espírito empreendedor por parte de Marius. Quando estava no Ensino Secundário, fez campanha para que a personalidade convidada a dar o discurso de graduação fosse Anna Wintour — conseguiu. Mais tarde, haveria de lhe enviar uma nota de agradecimento, a qual teve resposta, e mantiveram o contacto. Marley, antes de se licenciar, informara Wintour que enviara a informação aos Recursos Humanos da Vogue…
Pronto, e já sabem o que se seguiu, uma estória surpreendente para nos deixar — ou intrigados ou inspirados, até nos encontrarmos no próximo ensaio.
Moda que se Ouve - Lista de Podcasts Ouvidos
E tu o que tens andado a ouvir?
Até para semana!
Com amor,
Vera Lúcia Mendes


