Serial Intern: Uma Conversa com Emma Raguz

Voltamos (virtualmente) a Nova Iorque. Espero que já tivesse saudades destes perfis da comunidade TFS, porque eu sem dúvida que já tinha muitas saudades destas trocas de perspectivas e pontos de vista.
Um dos pontos centrais da nossa troca de ideias incidiu sobre o universo corporativo, aquilo a que os americanos chamam de corporate.
Já que o The Fashion Standup é comunidade espalhada por 81 países, importa relembrar o que engloba o corporate:
Neste contexto, empresas corporativas são empresas de grandes dimensões com diversos departamentos, hierarquias rígidas e extensos organogramas.
E não há melhor forma de voltar a esse intercâmbio de sinergias do que com Emma Raguz. Nestes “episódios” sobre quem faz a Moda acontecer, seja em que projecto for, em que cargo for, em diversos pontos do globo. Emma é talvez a mais sem filtros com quem já tive uma vídeo-chamada para este projecto.
Porquê? Porque Emma dá liberdade a si própria para dizer que — ainda que seja consciente do feito e do privilégio que é estar a trabalhar na Prada, como integrante do Generation Prada Programme — não tem pudor em dizer que não se sente realizada.

O dia-a-dia de Emma consiste em preparar embalagens a serem enviadas e preparar documentos para serem enviados para Milão. Tudo o que acontece em Nova Iorque está completamente dependente daquelas que são as decisões da sede milanesa… O que torna o seu trabalho pouco motivante.
Não obstante, enfatiza a génese da Generation Prada Programme. Um programa de emprego de curto prazo que ao fim do mesmo tem um historial de contratação de uma proporcionalidade bastante alta face a quem entra no dito programa.
Esta iniciativa da Prada só tem lugar nos EUA e, estando só na sua quinta edição, tem uma envolvência muito diferente do seu estágio na Tiffany & Co parte da LVMH. Sendo parte de tão grande conglomerado, têm programas de estágios todos os anos nos quais dos 80 estagiários - só são empregados 2.
Há quem seja serial killer, Emma é uma serial intern, considera que fazer estágios é uma enorme mais valia de aprendizagem. Ainda que esteja totalmente consciente de que quando se chega à etapa de concorrer ao lugar de estagiário sem se ser pago, não são muitas as pessoas que se podem sujeitar a isso.
Como complemento ao seu rendimento trabalha numa loja vintage, na qual considera que o maior ensinamento que retira é comunicação. Uma capacidade que considera cada vez mais em vias de extinção, principalmente desde a pandemia.

No seu note de apresentação ao Substack, mencionou os estágios que na Proenza Schouler e na Oscar de la Renta, e como é óbvio, curiosa como sou tive de saber mais. O que descobri? Que ainda que se tratem empresas distintas, o facto de todos os departamentos estarem juntos aumenta a aprendizagem e aquela adrenalina muito própria de trabalhar em Moda. Descobriu que Jack McCollough e Lazaro Hernandez são muito simpáticos e que tanto Laura Kim como Fernando García estão longe de serem vedetas.
Esta rapariga do Ohio que corajosamente há quase sete anos vive em Nova Iorque, gostaria de ter um quotidiano mais criativo, que pudesse inclusivamente pintar… Se bem que é consciente de que não seria realista como full-time.
Ao longo da nossa conversa tocamos noutros pontos sensíveis - o preço da educação, os sistemas de saúde, o apoio dos pais, a importância que o merchandise podia ter na Moda independente.
Emma optou por estudar no FIT, não só por ser mais economicamente acessível que a Parsons, considera ter sido para uma ótima escola. Tem amigos que contraíram avultados empréstimos para os estudos e que serão muito difíceis de pagar.
Houve entre nós um ligeiro choque cultural, em termos de ficarmos a par de quanto é o salário anual digno em cada país, e qual o impacto dos sistemas de saúde no trabalho e nas escolhas de carreira. Apesar dessas diferenças, uma coisa é transversal em cada lado do oceano — os Zillenials continuam a precisar da ajuda financeira dos pais, mesmo vivendo fora de casa.
Tendo estudado gestão de produção, também trabalhou na área de merchandise. Pedi-lhe que aprofundasse sobre a área, uma vez que o Sistema de Moda em Portugal não é propriamente corporativo. Ao ser o merchandise a consciência do processo - entre o design e a produção e coloca a pergunta: “será que se venderá?” Em termos de fast fashion e ultra fast fashion pode levar ao consumismo extremo. Mas quando se trata de marcas designers de Moda independente é essencial para fechar o ciclo do Sistema de Moda.

Ah, e também falámos da signora Prada. Perguntei à minha “convidada” se já tinha conhecido Miuccia Prada, tal ainda não aconteceu. Não obstante se acontecer, acredita que não reagirá como se estivesse perante uma divindade. Já que com base em todas as entrevistas daquela que em última análise é a sua chefe — considera que ela é uma accidental queen.
Concordámos que no fim de contas são seres humanos e que está nas nossas mãos aquilo que somos, na forma como fazemos o nosso trabalho. Que se nas poéticas palavras de Emma se lê assim:
“Eu acho que ganhar o respeito das pessoas é uma parte enorme de se ter sucesso, ser capaz de aguentar e partir daí ter uma carreira. Mas também ninguém, mauzinho quanto aquilo que aparentam. Sinto que toda a gente se apresenta como pessoas chiques, todas vestidas de preto em eventos com a cabeça no telemóvel e é do género — têm aquela aparência, mas não são assim. Pessoas na área da Moda aparentam ser mais rígidas daquilo que realmente são, está tudo bem. Mas na verdade não são assim tão sérias. E portanto acho que se conseguires aguentar essa energia que, às vezes, é abrasiva e ter a noção de que não é pessoal
(…)
porque muitas vezes, é quando estás no trabalho sentada e a pensar: “para que é que eu estou a fazer”. E depois lembraste que determinada pessoa te pediu ajuda com alguma coisa, e portanto sabem que tu existes, e isso é — sabes, talvez possa ser um pouco humilhante, mas no fim de contas pensas: “estas pessoas lembram-se e a mim, a minha equipa lembra-se de mim, e isso é mesmo fixe.”
De toda esta experiência, reflecte também que o mais é não queimar pontes de relações entre as pessoas, considerando que se deve procurar deixar um cargo sem ressentimentos ou “a mal”.

Esperem, não me posso esquecer de falar da relação de Emma com Portugal, sem ter cá vindo, tendo tudo tido lugar em Nova Iorque. Enquanto esteve na Purple PR, fez parte da equipa que acompanhou a delegação da APICCAPS (Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos) e que fez a conexão entre a associação portuguesa e o designer americano Willy Chavarria.
A propósito do seu tempo na Purple PR, a fundadora do Kapital F lembra uma lição da amiga e colega de trabalho:
“It’s PR (Public Relations), it is not ER (Emergency Room).”
E, permitam a indulgência de partilhar o “pedido” que Emma me fez, ao despedirmo-nos, disse-me para não deixar de ser esta pessoa que faz networking na Moda, já que afinal a Emma adora que as pessoas tenham boas capacidades comunicativas.
Como a Moda não é para tirar conclusões, é para gerar pensamento, daí que não falte o nosso food for thought. Muito se tem dito que os Zillenials (os Gen Zs mais velhos) não são propriamente fãs do universo corporativo. Mas na minha opinião, a geração a que pertenço só tomou consciência mais cedo…
Porque temos mais acesso à informação enquanto jovens adultos (confirmei ontem que cientificamente a meia-idade só começa aos 40) do que qualquer outra que nos antecedeu. As mulheres baby-boomers tiveram que arranjar espaço para nós termos vidas independentes como mulheres.

As afinidades entre Zillenials e Baby Boomers, ignorando diligentemente as duas gerações e meia que as separam — mas para não divergir mais, deixo-vos com as palavras da Emma:
"É um momento de viragem — quero trabalhar em algo com significado real, ou prefiro cumprir o horário e receber o ordenado? Penso nisso em termos do teu currículo versus o teu elogio fúnebre. Um existe para os outros. O outro é inteiramente teu."
Até para a semana!
Com amor,
Vera Lúcia


