The Fabricant: Vestir o Futuro (Sem o Substituir)

Desta vez faço-o já antes de arrancarmos… Sim, mais um disclaimer. Este ensaio não é patrocinado.
Hoje falamos de The Fabricant, porque ao promover este Substack conheci a Shwetha JM, embaixadora do The Fabricant que me fez uma demonstração das novas ferramentas de AI da empresa tecnológica, apesar de eu não praticar Design de Moda de uma forma tradicional.
Pode parecer datado falar de The Fabricant em 2026, quando o seu hype se deu antes da pandemia, sendo apelidada à época de “first digital fashion house”.
Contudo, termos associados a este universo virtual, que se antecipava ser o futuro iminente, caíram em desuso. Os nossos algoritmos já não são inundados com termos como NFT, blockchain, Ethereum. Moeda esta que viu a sua cotação baixar mais de 39% no último ano, período no qual o Bitcoin desceu também (26%).
Então com tudo isto, como é que falar da primeira casa de Moda digital não é deslocado a nível temporal?
Porque esta empresa se soube reinventar, não só em termos de lucro, mas também de impacto projectual do The Fabricant no Sistema de Moda no seu todo. Em grande a facilidade do seu uso, não havendo propriamente uma learning curve prévia à sua eficiência utilização.
Uma vez que quando se começou a falar de Moda digital — havia um gatekeeping em termos de executar Moda em softwares digitais avançados. Softwares como o Clo 3D têm uma learning curve imensa o que obviamente se traduz em termos de maior investimento para lá dos custos elevados da licença dos softwares. Especificando o The Fabricant tem um plano gratuito e os planos pagos começam nos $19/mês. já no caso do Clo 3D os planos, sem se fazer prova de que se é estudante, começam nos $50/mês a que acrescem impostos.
Mas do que estamos a falar, exactamente, quando falamos das ferramentas inteligentes do The Fabricant?
São sete as ferramentas em questão:
Sketch-to-Image — conversão de desenhos em imagens de alta resolução;
Photo Studio — a possibilidade de vestir uma modelo virtual com peças previamente idealizadas;
Editorials — criação de editoriais realistas através das referências das peças, da modela que as irá vestir e do ambiente em que se encontrará;
Upscaler — aumento da resolução de imagens sem perda de detalhe;
Create Image — gerador de imagens por meio de IA, maioritariamente, com recurso a prompts;
Editing Tool — edição e refinamento de imagens com recurso a IA;
Video Creator — conversão de imagens estáticas em “vídeos cinemáticos”.
Devo ser, totalmente, honesta ainda que possa facilitar a visualização e expressão mais clara de ideias — estou convicta de que não substituirá profissões. Uma vez que, a mais-valia da produção de um editorial não é somente a produção de uma imagem mas o trabalho de equipa e a fruição de criatividade que advém desse diálogo.
Também existem questões éticas, que quanto a mim devem ser tidas do lado dos utilizadores. Ora vejamos, és designer, usas o The Fabricant, quando chega à parte das referências que referências queres usar? Uma curadoria cuidada entre recursos por ti e outros outsourced da internet ou de livros? Ou vais abdicar de pôr as mãos na massa, completamente?
No Clo 3D, também existe uma extensa biblioteca de recursos prontos a usar. Também nos bons e velhinhos moldes feitos à mão com régua francesa, lapiseira e papel vegetal se usam moldes base e demais templates. Nunca em Moda se pediu a completa reinvenção da roda, mas a capacidade tecnológica de encurtar a nossa metodologia depende de nós.
Por exemplo, uma das coisas que eu menos gostava de fazer na Escola de Moda eram os desenhos planos, uma ferramenta que o The Fabricant prevê lançar em breve. Contudo, sou consciente de que para a obtenção de bons resultados e sentido crítico há que aprender a fazer, conhecer o processo. O mesmo com o comportamento dos tecidos, das costuras, etc…
Da mesma, são humanos que vivem para a Moda (na verdade, é isso que grande parte de nós somos, não é?) que são responsáveis por preservar a expressão e expressividade dos desenhos, esboços e ilustrações de Moda. Aquela dança frenética do lápis sobre o papel — no meu caso eram as canetas paper mate azuis — para que uma ideia não se perca.
Depende de nós não criarmos só desenhos bonitinhos e realista para que a AI os possa ler e interpretar. Sou da opinião que há que continuar a começar o processo pelos rabiscos.
Como subscritores do The Fashion Standup, já me vão conhecendo, é claro que interrompi umas quantas vezes a demonstração da simpática Shwetha para fazer perguntas muito para lá daquilo que era demonstrado. O profissionalismo desta embaixadora pouco se desviou do guião.
Descobri apenas que, tendo sede em Amesterdão, com uma equipa efectiva não muito extensa conta com diversos embaixadores por todo o mundo que fazem as demonstrações e, ao que percebi operam como comerciais da empresa. A minha interlocutora trabalha a partir de Chennai, na Índia.
Devo contar-vos que Shwetha muito me incentivou para que criasse as minhas próprias imagens, no entanto preferi usar as redes sociais como meio de pesquisa (serei sempre grata à Amanda Sikarskie pela defesa da legitimação de dita fonte em meio académico) para demonstrar o que pode ser conseguido com uma utilização, a meu ver, experiente e criativa deste software.
Os créditos de cada imagem utilizada nas colagens estão patentes por links para que possas descobrir melhor o trabalho e a inspiração de cada um dos seus autores. Criações a que se juntam as colaborações da empresa, fundada em 2018, com a marca Maison Margiela e com a gigante tecnologia, dona do Instagram e do Facebook.
A boa utilização de ferramentas destas poderá, como referia Damara Inglês nas Fast Talks da mais recente edição da Lisboa Fashion Week, a ModaLisboa Pebbling, incrementar a sustentabilidade das marcas de autor e de designers independentes. Como? Dando ao consumidor a ideia precisa e realista do produto físico, mas produzindo on-demand. Elimina-se o excesso de produção aumentando-se a sustentabilidade ambiental e financeira.
É claro que esta vantagem está pendente de se efectivar com o elo que completa o ciclo de Moda — a compra. Estarão os consumidores, inseridos neste mundo frenético, maioritariamente capitalista e materialista, disposta a esperar? Escolho o optimismo de acreditar que sim.
Em última análise, nesta que não é uma book review nem uma fashion review, mas sim, uma tools reviews — considero que quando com sentido crítico, The Fabricant pode ter vários benefícios, principalmente, para marcas independentes. E a menção a book reviews e fashion show reviews, não foi em vão, já que o objectivo deste ensaio é o mesmo que nessas ocasiões — inspirar-vos e, possivelmente, dar-vos a conhecer algo novo.
Obviamente, que o uso de ferramentas de Inteligência Artificial depende da criatividade e ética humana. Portanto como criativos devemos optar, em plena consciência, por uma das seguintes opções:
a) rejeitar totalmente a utilização de quaisquer ferramentas de Inteligência Artificial;
b) usar ferramentas de Inteligência Artificial, mas só em tarefas complementares ao Processo Criativo e, não no próprio Processo Criativo;
c) usar a IA até no Processo Criativo, mesmo que com isso não se exercite o músculo da Criatividade.
Eu escolho a opção b) e tu?
Até para a semana!
Com amor,
Vera Lúcia







