Eduarda Abbondanza, o Sol da Moda Portuguesa

“A moda, a moda e criação de marca e criação de identidade, território, cultura de marca, etc. Leva tempo, leva estações a investir para depois mais tarde recuperar, sendo que ainda por cima há um risco. “ - Eduarda Abbondanza, co-fundadora e presidente da Associação ModaLisboa
Conheço a Eduarda quase desde sempre, desde dos meus 11 anos… Não aprendi com ela só quando foi minha professora. Aprendi todos os dias dos últimos 15 anos, e tenho os próximos 150 para continuar aprender.
A lição mais importante? O que é amizade verdadeira, pura e preciosa. E, sim essa amizade existe tão bonita com uns quantos anos de diferença de idades (eu não posso dizer quantos). Portanto, já ficam advertidos que este é o texto do The Fashion Standup com mais viés que alguma vez vão ler.
Que farei por isso, podem ter absoluta certeza…
Ser aluna da Eduarda é um dos maiores privilégios quem estuda Moda, porque a professora Eduarda está contigo, está na tua equipa, para te ajudar, para te incentivar a seres um melhor designer, um melhor profissional de Moda.
Escrever sobre isto é, fisicamente, bem mais emotivo do que esperava… Se consegui apresentar uma coleção feita por mim, de uma ponta à outra, com ajuda da Maria José e da minha mãe em algumas partes do processo… Foi porque para lá da minha motivação, eu tinha a certeza que chegaria ao fim, porque a professora Eduarda transmitia-me a confiança de que eu seria capaz, portanto eu acreditei também.
Um dos momentos mais bonitos das aulas era quando a professora — daqui em diante referir-me-ei somente como Eduarda, porque foi o maior esforço mental que fiz durante um ano, o de não me enganar — se sentava entre nós para conversar.
Nessa altura, tentava captar tudo, mas metas de outras Unidades Curriculares (e de Projeto) para cumprir, viagens, trânsito, poucas horas de sono e uma imensidão de outras coisas interpunham-se… Ao ponto de eu não conseguir vislumbrar a riqueza que seria eu ter documentado todo aquele conhecimento.
Até surge a iniciativa, “Great Artist on Campus” na Universidade Lusófona — pouco depois do final da ModaLisboa Pebbling — a 24 de Março.
Assim, que sendo a conversa na sala de Cinema da Universidade, já saberia que iria registar o áudio. Aproximando-se a conversa de Eduarda Abbondanza com João de Sousa Cardoso com as saudosas aulas. E resultando a dita gravação numa transcrição de mais de 10 000 palavras de pura e poética sabedoria, seria muito egoísta não a partilhar…
Para o fazer tive de fazer a curadoria de todas essas páginas em algo que não ultrapasse o formato das nossas newsletter, portanto haverão saltos de contexto, pouco comentário da minha parte e maior simplicidade possível.
Também nas citações, praticamente, não houve edições. E, ainda que existam centenas de entrevista com a Eduarda, e eu já li, visionei e estudei uma quantidade considerável das mesmas. Assim, acredito que as citações aqui feitas acrescentam novos e valiosos elementos ao acervo e arquivo vivo do Sistema e da História da Moda em Portugal. De tal forma enriquecedoras que se justifica, plenamente, que ocupem quase um terço desta narrativa.
Para Eduarda, a Moda não era uma vocação de criança, foi uma descoberta da vida adulta, ainda que nesse então fosse “muito menina”, como a própria descreve.
Em criança, a vocação de Eduarda, era o ballet. A sua vida girava em torno das aulas de ballet na Escola de Dança do Teatro Nacional São Carlos.
Ao apanhar o vírus da hepatite, passa de 3 meses, a ficar um ano de cama, não só devido ao facto de ter de reaprender a andar, mas devido ao choque emocional de toda a situação.
O ballet fica para trás e a jovem Eduarda tem de se reinventar na sua inquietude e na sua imensa actividade, de quem não consegue parar quieta…
O 25 de Abril de 1974, a Revolução dos Cravos, dá-se quando estava no início do liceu. Terminado o Liceu decide estudar Arquitectura — poucas mais opções haviam no Portugal de então. A Faculdade, estava fechada, o país girava em torno da política e de como se construiria uma democracia.

Eduarda descobre, então, um curso de Multimedia na Escola António Arroio e inscreveu-se. Para um curso de Multimedia, não havia nem máquinas de filmar nem televisões suficientes… Dez dias foram suficientes para esgotar as possibilidades naquele sítio e seguir em frente.
E agora? O que ia fazer? Ficar quieta? Parada em casa? OMG, não!!!
Se há coisa que vos posso garantir sobre a Eduarda, e modéstia à parte saberá, que eu nisto, até tenho razão — a Eduarda nunca é espectadora, nunca fica sentada à espera que as circunstâncias mudem. Será sempre agente de mudança, ou no mínimo, de uma aventura entusiasmante.
Se algum dia testemunhar o contrário, acreditarei que o apocalipse estará a chegar.
Portanto, o que se seguiu? Trabalhou com os bombeiros, dando aulas de alfabetização às crianças vindas de África — das colónias portuguesas que se iriam tornar independentes — e ajudando nos seus cuidados mais básicos como o banho
Mais tarde surge a oportunidade de trabalhar nos CTT,, era suposto serem três meses. Inadvertidamente faz carreira nos CTT - Correios de Portugal, dois anos volvidos e apercebendo -se de que não haviam passado só alguns meses, despede-se.

Pouco mais tarde, conhece aquele que viria a ser o seu marido, rapidamente, decidem casar. E, é assim que Eduarda se torna Abbondanza e chega a Itália, a Milão.
Esgotado que estava tudo o que havia para fazer em Lisboa até então, Eduarda tinha agora Milão. Como toda a sua familia italiana fumava, prontifica-se a ir passear os cães, comprar tabaco e os jornais… E começa também a comprar, para si mesma, revistas de Moda. A Moda entra na sua vida para jamais sair.
Ok, paremos o filme só um instante para reflectir sobre algo — estamos a falar de um período temporal no qual as revistas de Moda se dedicavam, praticamente, em exclusivo à Moda. Da mesma forma que quem escrevia sobre Moda, fazia-o com tempo e espaço.
No advento da ModaLisboa e durante a década de 90 e até aos anos de 2010s, tal também aconteceu em Portugal. Sendo que, actualmente, essa dedicação à Moda e espaço nos media, diminui, dissipou-se no grande chapéu de chuva do lifestyle.
A necessidade presente de que exista pensamento de Moda — pensar a Moda com tempo de forma curada e maturada, também foi tema de conversa ente João Sousa Cardoso e Eduarda. Mas como isto dá para muitas mangas, vamos voltar a Milão.
Em Milão, Eduarda não tinha necessidade de trabalhar. Por isso, fez imensa coisa. A primeira foi trabalhar num videoclube, redatava as fichas técnicas dos filmes. Tarefa que a obrigava a consumir altas doses de cinema italiano, o que lhe permitiu expandir o seu capital cultural.
Ao videoclube segui-se o Teatro alla Scala, onde trabalhou como assistente de Guarda-Roupa, em produções sob direção de Giorgio Strehler. Também ajudou um amigo que era fotógrafo, no estúdio de quem conheceu muita gente importante. Sendo sempre: “muito menina, sempre muito invisível, mas sempre a apanhar e a caçar”.

Visitava Lisboa frequentemente — visitando a família. Terminado o casamento, sabia que queria voltar a Lisboa e estudar Moda, a escola que operava em Portugal era italiana e Eduarda integrou a turma pioneira:
“Descubro a escola e descubro que a escola já tinha começado o ano há três meses. E então ligo para a escola. E ligo várias vezes naquela de “eu faço os trabalhos todos para trás. Eu faço tudo. Eu vou às aulas todas. Eu recupero. Por favor, deixe lá não sei quê.” E eles deixaram entrar passado três meses. Portanto, quando eu entro, a turma já estava criada. Já estavam todos a trabalhar. E eu entro nessa de eu quero mesmo isto, eu vou mesmo trabalhar, não interessa.” E pronto. (..) Ou seja, a escola era a nossa vida.”
Nesta conversa, em que se baseia este ensaio foi das raras em que a fundadora da ModaLisboa fala sobre o seu percurso, em nome próprio e em dupla, no Design de Moda de Autor:
“E quando decido regressar, definitivamente vou ter com Mário. E, o Mário estava a abrir a sua loja, não é? E eu ajudei nessa abertura, etc. Portanto, havia a etiqueta Mário Matos Ribeiro. Eu mais tarde criei a etiqueta Eduarda Abbondanza e comecei a vender na loja dele. E porque éramos as pessoas mais competitivas um com o outro, competíamos imenso. Achámos que nos iríamos canibalizar e que o melhor era juntarmo-nos. Então juntámos as duas etiquetas e criamos a etiqueta Abbondanza/Matos Ribeiro, a nossa marca, de maneira a não nos destruirmos na altura. “
Muito já se documentou os factos relativo ao que foi a criação da ModaLisboa, mas pouco se falou do sentimento — do propósito e intenção primordiais e primeiras. Daí o grande valor deste testemunho:
“Eu acho que nós fomos muito corajosos e não devíamos ter muito bem noção. Olhando agora, nós preparámo-nos, nós fomos para Paris, estagiar, porque tínhamos já decidido que íamos trabalhar com um gabinete internacional para trazer a imprensa internacional a Lisboa, porque o fenómeno é emergente. Em Lisboa era muito novo, ainda era verdinho e, portanto, seria sempre mais interessante a imprensa acompanhar o nosso nome no contexto daquilo que era o nosso território, a nossa cultura. Não esquecer que eu me irritava muito, que a minha sogra, quando eu estava em Lisboa, mandava me correspondência e punha nas cartas: “Lisbona, Portugallo, Spagna.” Quase ninguém conhecia a minha terra. Passava a vida a explicar de onde é que eu era. E, portanto, essa ideia de tornar Lisboa Portugal um lampião mais visível para o resto da Europa era uma intenção.”
A verdade é que conseguiram. Colocaram Lisboa no mapa da Moda, fundaram a primeira Semana de Moda independente do Mundo. Em 1996, é fundada a Associação ModaLisboa, a Semana de Moda de Lisboa torna-se independente da Câmara Municipal e próspera até hoje.
Desde a primeira edição em 1991 até hoje o catalisador máximo da Moda portuguesa prospera. Nestes 35 anos, a história da MLX escreveu-se com Eduarda Abbondanza a solo ao leme da mesma, com uma persistência e coragem incansáveis.
Mesmo antes de parar de escrever este ensaio, sinto que muito ficará por dizer.
Há que explicar também o porquê da escolha do título. Porque Eduarda Abbondanza é “Sol da Moda Portuguesa”, porque sem sua acção e o seu trabalho incansável seriamos apenas matéria dispersa pelo espaço, não seriamos um Sistema de Moda.

Assim, sendo a ModaLisboa, o projecto da sua vida, como já tantas vezes mencionou, Eduarda é o motor do mesmo, pelo que é o Sol em torno do qual gravitam os planetas e luas deste nosso Sistema de Moda em Portugal.
“Eu queria ter uma marca que se vendesse para além de mim. Eu não tinha que estar. Eu não queria estar a atender clientes no atelier. Queria ter uma marca tão boa que se vendesse para além de mim. Pronto! E fizeram a capa da Elle com uma camisa nossa, branca, incrível! E o facto dessa camisa branca ter saído na Elle. E nós nessa altura estávamos para além da nossa loja. Estávamos a vender em mais lojas e, vendíamos na Loja das Meias também.
Então nós fizemos três cápsulas de produção dessa camisa. Porque só recebíamos encomendas dessa camisa, porque ela tinha saído na capa da Elle e portanto toda a gente queria essa camisa.
E, um dia, eu ia no Príncipe Real no passeio e passa uma senhora por mim que levava a camisa vestida. E passa por mim. E ela sabia lá quem eu era. Ela não sabia quem eu era. E, portanto, eu de repente percebi o que é que era a moda, o que é que era vender para além do clube de pessoas maior ou mais pequeno…
Que era no meio de uma loja que tinha cinquenta mil camisas brancas… Ela tinha escolhido aquela, porque aquela era a melhor para ela, E então, nessa altura eu senti um arrepio na na coluna. E pensei isto para mim: “ eu quero da minha marca é que ela se venda porque é tão boa que vai para além das pessoas me conhecerem ou não. Pronto, basicamente é a história da camisa branca” - Eduarda Abbondanza
Até para a semana!
Com amor,
Vera Lúcia



