ModaLisboa Pebbling | Lisboa Fashion Week - Ensaio nº1
De quarta a Sexta-feira

Aqui no nosso TFS, a ModaLisboa Pebbling teve uma vibe distinta. E, para os mais desatentos, deixa-me explicar porquê — desta vez fui-vos actualizando com mails/pequenas mensagens diárias para lá das já habituais notes.
Nas notes mostrei-vos os desfiles da minha perspectiva, nestes ensaios mostrarei alguns looks da perspectiva dos fotógrafos oficiais do evento, e podes encontrar todos os looks de todas as 24 coleções apresentadas nesta 66ª edição da Semana de Moda Portuguesa no micro website da ModaLisboa Pebbling.
Uma vez que, por uma questão de coerência, só irei falar-vos das 17 coleções a cujos desfiles consegui assistir.
Neste primeiro ensaio vamos falar da abertura da Pop-up, das Fast Talks e, dos desfiles e coleções de: CITEVE; Drionadream, Francisca Nabinho; Çal Pfungst; Adja Baio; Arian Orrico; Mafalda Simões; Mariana Garcia e Usual Suspect.
Confesso que desta feita fiz alguma pesquisa sobre report de passerelle e de coleções, mas já me vão conhecendo acabo por seguir mais a minha intuição.
Pop-up Store
“(…) práticas de comércio justo, incentiva a compra consciente de peças autorais e reforça a sustentabilidade económica dos projetos criativos, valorizando a produção local, a qualidade material e a coerência conceptual. Mais do que um espaço comercial, a pop-up store ergue-se como lugar de partilha onde a relação entre criadores e públicos se constrói de forma próxima e responsável.”
Porque vos coloco tão extensa citação sobre a Pop-up store? Não, não é para que tenhas mais para ler, mas sim porque se há uns anos atrás e, especialmente na escrita de Moda em Portugal — (lembro-me de alguns professores nos meus tempos de faculdade abordarem isso mesmo) — se focavam demasiado nos comunicados de imprensa das organizações ou das memórias descritivas de designers, de forma acrítica. Hoje em dia, tenho vindo a notar que a população crescente de opiniões é tão expressiva que ofusca as intenções originais. Daí que, à semelhança da cobertura TFS sobre a ModaLisboa Base, encontrarás citações aos próprios designers e à Associação ModaLisboa.
Falei avidamente desta iniciativa e do cocktail de abertura no livestream e também no meu Instagram. Aproveitei tanto o rever das minhas pessoas e dediquei-me tão intensamente a escolher a peça de autor em que investiria para a Primavera/Verão que, literalmente, me esqueci que o meu telemóvel existia.
Fast Talks
“As Fast Talks são as conferências da ModaLisboa | Lisboa Fashion Week dedicadas ao pensamento crítico e reflexão sobre as temáticas emergentes nas áreas de Moda, Arte, Sustentabilidade e Futuro.”
De volta ao magnífico Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, num painel de fashion insiders e siders (porque estão ao lado, mas não dentro), contrastaram-se opiniões e perspectivas sobre a utilização da tecnologia e, nomeadamente, de Inteligência Artificial, na criatividade.
E, obviamente, que este não era um ensaio do The Fashion Standup, sem um momento ligeiramente pseudo-anedótico da minha parte… Ora, já conhecendo o anfiteatro do MUDE, onde decorreu a primeira Fast Talks de todas e as mais recentes, sei onde me sento para que, mesmo diminuindo as luzes, consiga continuar a ter visibilidade para escrever notas. No CAM não fui tão astuta, pelo que tive de gravar com o Ditafone — pronto aqui tens o contexto, fruto de eu ter fugido de uma rom-com, de porque o report destas Fast Talks pode soar um pouco diferente.
Fast Talks in a nutshell seria algo assim…
Fizeram parte de um painel único: a creative technologist Damara Inglês, a artista multidisciplinar Evy Jokhova, o director de Arte e director criativo Federigo Gambelleri, a actual directora de Homewear e da House of Capricorn da Amorim Luxury Group, Sónia Jesus e o artista transdisciplinar Tristany Mundo, com a moderação da jornalista Joana Moreira.
Sónia Jesus lembrou-nos como o storytelling pode ser fulcral para uma marca, mas que não tem utilidade sem produto (ou até serviço).
Federigo Gambelleri afirma categoricamente, falando maioritariamente para os estudantes presentes, que para sermos bons profissionais de Moda devemos desfazer-nos do ego e sermos esponjas pensantes de tudo o que nos rodeia.
Destaco a partilha de Damara Inglês sobre os criadores independentes que por expressões de Moda trazem a representatividade para os vídeo-jogos — como é o caso d’Os Sims e os catálogos de penteados e acessórios para cabelo afro. Damara elabora ainda sobre como softwares e ferramentas como o Clo 3D aliadas à IA, podem fomentar a sustentabilidade no sistema de Moda a vários níveis.
Concretizando, se um jovem designer fizer renderings dos seus designs, antes de os produzir, pode produzir conforme a procura evitando excedentes. Eu acrescento à perspectiva de Damara, que sendo eu ávida defensora do desfile e das semanas de Moda, estas ferramentas de tecnologia podiam permitir redução de protótipos físicos, tornando o processo mais eficiente e sustentável tanto a nível ambiental como financeiro. O que compensaria o preço de tais softwares.
Não é o objectivo sair das Fast Talks com respostas, mas sim com ainda mais perguntas…


CITEVE
“Cada peça resulta da colaboração entre empresas, centros de investigação e academia, demonstrando como a criatividade, desempenho industrial e responsabilidade ambiental podem caminhar lado a lado. A natureza inspira. A ciência transforma. A indústria concretiza.”
A equipa do CITEVE, sob direcção criativa de Paulo Gomes, inaugurou a edição Pebbling com um verdadeiro (e, consequentemente, emotivo) momento de Moda. Sendo inspirada pela natureza tratou-se de Moda em estado puro… das linhas, das manipulações têxteis. As luzes que as manequins transportavam no topo da nuca remeteram-me para os candeeiros que iluminam as obras de arte — trataram-se de verdadeiras obras-primas.

Drionadream
“Ao invés de oferecer facilidade, propõe desconforto como ferramenta de questionamento, convidando o corpo a sentir, e não apenas a acomodar-se. Explorando formas escultóricas e materiais que brincam com a percepção, o que parece macio pode revelar-se rígido, e o que aparenta transparência pode, na verdade, ocultar.”
Depois de ter sido finalista da edição anterior de Sangue Novo, Dri Martins integra agora a plataforma Workstation Design da ModaLisboa.
Segundo a própria Associação ModaLisboa a Workstation Design tem o intuito de:
“numa lógica de continuidade, de forma a capacitar os jovens Designers para um crescimento coeso, concertado e com verdadeiro impacto no mercado. O impulso a criadores emergentes numa fase determinante da sua carreira, bem como o trabalho colaborativo, são capazes de nutrir, fortificar e garantir o futuro da Moda nacional. A plataforma reúne, em cada edição da ModaLisboa | Lisboa Fashion Week, novos designers com talento e valências conceptuais para garantir o crescimento das suas marcas.”
O regresso da jovem designer faz-se com a marca própria, mas não homónima — Drionadream. Assim, em Cristal Clear desafia a ideia de que o conforto não deve ser sempre almejado, o corpo não tem, obrigatoriamente, de procurar o acomodar-se, mas sim buscar o que poderá surgir de dito questionamento.
Dri mantém paleta de cores e silhuetas similares às que já havia apresentado. Não querendo isto dizer repetição negativa, mas sim, maturidade. Preto, branco cru e rosa nude, em silhuetas I e T.
A impressão 3D continua a fazer parte do seu léxico, ainda que em detalhes mais discretos. Assim como os detalhes de corte a laser.

Francisca Nabinho
“Ao longo do desfile, a narrativa evolui: as silhuetas amadurecem, o discurso visual torna-se mais coeso e a identidade afirma-se com maior clareza, espelhando também a fase da maturidade da marca, onde todas as peças são integralmente originais, incluindo o calçado e as jóias.”
Depois de “A Alegria é a coisa mais séria da Vida”, Francisca Nabinho apresenta nesta estação “Lucky” — uma narrativa visual sobre a construção do gosto pessoal desde o seu “momento inaugural” ao amadurecimento.
Nesta coleção, a marca, que homenageia as memórias mais doces da infância das raparigas Gen Z, uniu-se à Joalharia do Carmo, trazendo a joalharia tradicional portuguesa para esta divertida descoberta.

Çal Pfungst
“Na lua, prego botões na rua. A cada botão, fico mais efémero. Pensar a roupa enquanto dispositivo de viagem.”
Çal Pfungst traz a este Pebbling “00:00 Voyage Mirawfe Balayage” com a apresentação de looks masculinos, para lá de femininos, em que destaco o look 5: um conjunto de calças de corte direito e jaqueta de gola Mao em veludo carmim.



Sangue Novo
Os concorrentes do Sangue Novo deram continuidade aos conceitos já iniciados:
Adja Baio
“A coleção Patakera surge como continuação da anterior, aprofundando a identidade, o corpo e o excesso enquanto linguagem visual.”
Ariana Orrico
“Num exercício contínuo de questionamento dos limites da masculinidade normativa, Ariana Orrico apresenta a coleção de menswear Macho Alfa.”
Mafalda Simões
“A coleção Soft Tissues – Bodies Under Pressure surge do reconhecimento de que o corpo humano é, simultaneamente, o material mais vulnerável e o mais resiliente que possuímos.”
Mariana Garcia
“Cota 0.1 inspira-se no poema “Hope is a Thing with Feathers”, de Emily Dickinson, que apresenta a esperança como uma força constante.”
Usual Suspect
“Na coleção Horas Extra, Usual Suspect reflete sobre o património individual enquanto algo que se constrói no dia a dia, através do trabalho, da persistência e das escolhas feitas ao longo do tempo.”
Foi interessante e até divertido quebrar a tradição do Sangue Novo às 18 de sexta-feira.
Para lá do que se pode presenciar sobre a passerelle, as vencedoras foram as designers que claramente mais amadureceram — Ariana Orrico e Mafalda Simões.
Nenhum destes talentos emergentes seguiu receitas de sucesso.
Ariana aborda o menswear com curiosidade sem dogmas e com questionamento rebelde. Num momento da Moda internacional em que a porta está aberta para designers mulheres reinterpretarem o menswear mais tradicional, Ariana não escolhe o óbvio.
Mafalda Simões pega nos crafts (no crochet e no tricot), mas não apenas como quem idealiza, mas também como quem lhe dá vida, como quem ao criar com as mãos exerce o seu maior acto de resistência.
Bem, e esta viagem por este ensaio já se tornou mais longa do que antevia, como provou o livestream da semana passada, quando começo a falar da ModaLisboa | Lisboa Fashion Week o difícil é calar-me ou parar de escrever.
Portanto para uma segunda parte desta narrativa dos melhores dias da Moda portuguesa, que se repetirão em Outubro, sendo ainda singulares, ficaram as propostas de: Bárbara Atanásio; Arndes; Gonçalo Peixoto; Ricardo Andrez; DuarteHajime; Luís Onofre; Nuno Baltazar e Luís Carvalho.
Até para a semana!
Com amor,
Vera Lúcia


