Mais além da Base
Lisboa Fashion Week - Dia 6

Eu já sei que demorei, literalmente, três meses para concluir esta série de ensaios sobre a ModaLisboa Base. Mas, de certa forma, com intencionalidade ou por acidente, esta é a materialização daquilo que tenho vindo a defender durante as mais de sessenta edições de TFS - ter tempo para criticar a Moda.
Criticar não no sentido negativo, mas no sentido de pensar, analisar, partilhar e contextualizar a própria Moda. Complementando a vertente visual que lhe é inerente com a componente linguistica.
Portanto, cá vamos nós outra vez.
Domingo de Lisboa Fashion Week é sempre nostálgico. Nostálgico, porque a fashion family só se vai voltar a reunir desta forma daí a seis meses. A saudade da adrenalina, uma adrenalina tão característica a uma Semana de Moda, uma adrenalina também ela antecipada… Ao mesmo tempo temos ainda neste batido de emoções o entusiasmo de termos mais um dia pela frente.
Bem, verdade seja dita com esta calendarização consegui prolongar o entusiasmo quase até à edição seguinte.
Mas como sabem, é quase, humanamente, impossível assistir a todos os desfile de cada dia da Semana de Moda. Pelo que vamos às nossas listas: Lista 1 - a lista de todos os designers e marcas que apresentaram o seu trabalho neste sexto dia de evento e Lista 2 - a lista dos designers / marcas cujos desfiles assisti e dos quais vos falar.
Lista 1:
Constança Entrudo;
Nuno Baltazar;
Çal Pfungst;
Arndes;
DuarteHajime;
Valentim Quaresma;
Dino Alves;
Luís Carvalho.
Lista 2:
Çal Pfungst;
Arndes;
DuarteHajime;
Dino Alves.

Çal Pfungst
“13 - dissolver-me no photoshop.”
Depois de ter começado a sua carreira na plataforma Sangue Novo em Outubro de 2022 na ModaLisboa Oasis, participando ainda na edição seguinte deste oncurso. O que significa que dentro da plataforma Sangue apresentara 4 coleções em quatro estações seguidas - SS23, FW 23/24, SS 24, FW 24/25.
Para a plataforma Workstation passaria com a apresentação da coleção SS 25 (Outubro de 2024 - ModaLisboa Singular). Agora, um ano mais tarde regressa com uma coleção, continuando a dedicar-se ao menswear, de 10 looks.
Dez looks para os quais escreveu 13 premissas. Nas quais nos explica que este seu conceito entre o erotismo, a natureza e a tecnologia… Ainda que possamos inferir que a popularidade do photoshop foi amplamente ultrapassada pela AI generativa. Mas, muito provavelmente este não éd o momento para se começar o debate se a utilização de ferramentas como o Photoshop, sem recurso a AI, pode ser considerado craft digital.
Bem, quando comparado com o menswear clássico a assinatura de Çal Pfungst é sem dúvida extravagante. Não obstante, em oposição à sua primeira coleção onde a sua idiossincrasia criativa se manifestou por meio das formas e da modelagem, desta feita esta vislumbra-se pelo styling e pelos acessórios.
Vendas, máscaras e demais acessórios remetem-nos para elementos naturais como coroas de ramos ou de palha.
Arndes
“O verão na aldeia é o espaço onde o antigo encontra o novo, onde a memória se entrelaça com a invenção, e onde a Moda se torna linguagem de celebração da vida simples, porém múltipla e versátil.”
Arndes, marca de Ana Rita de Sousa, tem feito um crescimento sustentado entre as plataformas Sangue Novo e Workstation desde Outubro de 2020, na ModaLisboa MAIS. Edição realizada totalmente em formato digital em plena crise pandémica. Seis meses mais tarde a fundadora da marca vence o Prémio ModaLisboa X Polimoda.
Regressada da sua formação em Florença, Ana Rita e Arndes passa à plataforma Workstation, há já sete estações, sem interrupções. A sétima estação de Arndes materializa-se em veraneio.
Uma coleção com muita da semiótica que tem vindo a caracterizar a marca, tais como o contraste de comportamentos de tecidos, ora fluidos, normalmente no que veste o corpo da cintura para baixo, ora estruturados. Sempre numa paleta de cores característica brancos, crús e preto são sempre a base, em “Veraneio” foram toda a paleta.
Tendo observado atentamente e ao vivo e a cores, tenho sempre a ideia que Ana Rita a cada coleção pega numa ou duas “peças base” e desconstrói-as. Muitas vezes, sendo o eleito, a meu ver, o blazer. Desta feita, parece-me que os eleitos foram os hoodies e as parkas.

DuarteHajime
“Na mitologia Grega, Medusa era uma das três irmãs Gorgon, conhecida pelo seu cabelo feito de serpentes vivas e um olhar tão poderoso que poderia transformar qualquer um que a olhasse em pedra. No entanto, a Medusa nem sempre foi um monstro – era uma mulher muito bonita, transformada posteriormente pela enraivecida deusa Athena, depois de ser seduzida por Poseidon, no seu templo. Mais tarde, o herói Perseus, ajudado pelos deuses, decapitou a medusa usando um escudo espelhado, para evitar o seu olhar mortífero; usou a sua cabeça como arma e ofereceu-a mais tarde a Athena, que a colocou na frente do seu próprio escudo.
PETRA, coleção primavera/verão 2026, reimagina o mito da Medusa, não a vendo como um monstro, mas como um símbolo de poder feminino e de transformação.”
No caso de DuarteHajime a citação é maior. Porque confesso que, ainda que admire ampla vertente de conceptualização profunda. Mas desde que a marca se inspira em mitologia, eu fico meio perdida no storytelling…
Ainda que não tão veterana quanto o genial Dino Alves, a marca de Ana Duarte completa em 2026 a sua primeira década de existência.
Para Petra, DuarteHajime insere no seu léxico uma novidade - um elemento decorativo, decorativo no sentido de não ter função para lá do adorno, e simbólico - as asas. Este elemento figura a solo como acessório dourado integrado na modelagem, como no caso do blusão de ganga cinza.
Muito provavelmente, esta foi a primeira coleção da marca em que os vermelhos, laranjas e corais foram deixados completamente de lado. Mas para quem já os percepciona como parte do ADN da marca, deixam saudades.

Dino Alves
“Esta coleção foi pensada para, a partir de uma ideia ou de ideias já apontadas noutras coleções anteriores, ir mais longe, ultrapassando a própria ideia.”
Dino Alves quis ir “Mais Além” ou não fosse ele o “infant terrible” da Moda Portuguesa, como era tantas vezes descrito na década de 2000 e inícios da década de 2010. Sendo ainda, por vários autores portugueses comparado com Jean Paul Gaultier.
Dino apresenta-nos uma coleção vibrante que ao explorarem coleções anteriores não as repete ao ponto de apagar a chama de felicidade que está sempre nos seus desfiles que nos colocam a dopamina nos píncaros.
Numa extensa coleção de 68 looks, que evolui de forma tão perfeita, quase parece que nos leva pela mão por entre um jogo… O jogo do Design de Moda.
O jogo seria algo assim:
Começamos com três manequins de torso aparentemente despidos com saias drapeadas, diferentes drapeados, os mesmos materiais diferentes cores.
Interrompe-se a ilusão de torsos despidos por uma manequim em cai-cai levemente drapeado lilás e mini-saia preta. Agora a mini saia dá lugar a uns calções para um manequim masculino com o regresso da ilusão do torso.
Faz-se assim a cisão para serem introduzidos, em mais duas manequins femininos, o carmim e o azul celeste.
E, assim continuaria… O que ainda virá? Anacronicamente, veremos núcleos de preto e núcleo de branco e em balandraus drapeados, cores essas que já haviam fundido em xadrez quer em calções masculinos ou mini-saias femininas. Fazendo ainda parte deste elenco, entre outros: as saias de tule, as saias com aros a fazer lembrar as crinolinas e o ressaltar dos seios por várias aplicações e detalhes, com especial destaque para o encerramento com aplicação de seios cónicos em veludo no busto do vestido.
Ainda que esta seja a conclusão dos ensaios sobre a mais recente edição da Lisboa Fashion Week, em Março regressará… E aqui a partilharemos. Tudo está em aberto, uma coisa é certa à Base já não regressaremos.
Continuaremos a jogar? Fico à tua espera.
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Até para a semana!
Com amor,
Vera Lúcia


