Klarna, Propósito e WFH: Manual de uma Feminista que Trabalha em Moda
Se tivesse de escolher uma palavra, ou melhor, uma expressão para definir o ensaio desta semana seria sagacidade acidental.
Sim, eu já sei que não é a primeira nem a segunda vez que vos falo desta expressão. Mas, garanto-vos, esta semana até eu estou espantada por ter chegado a este tema…
Bem, uma coisa de cada vez, tudo começou com um comentário que fiz neste post de Instagram da 1 Granary. E não pelo comentário em si, porque não tendo eu o hábito de fazer comentários no Instagram, a não ser amigos próximos, o facto de este ter tido tão boa recepção abriu na minha percepção uma possibilidade a explorar.
O comentário, traduzindo, dizia, a propósito do que esperamos ou nos é “prometido” numa carreira em Moda em contraste com ao que realmente acontece ou nos acontece:
“Mas, apesar de tudo, continuamos a adorar trabalhar em Moda. Mesmo trabalhando nos nossos próprios projectos ou noutros projectos, por pura paixão e para viver a experiência. ❤️ Afinal de contas, é melhor nunca ser rico e estar sempre a esticar o dinheiro, mas ter a alma preenchida.”
Ora eu que sempre fui prodigiosa em desejos consumistas “necessários”, claro está, decidi pesquisar sobre dinheiro, finanças pessoais e tecê-la por um tear de palavras à própria Moda,
Comecei a minha investigação pelo início mais início possível — o livro “The New Money Rules: The Gen Z Guide to Personal Finance” de Lilian Zhang.

A principal conclusão a retirar do livro de Zhang é a confirmação de algo de que já nos começávamos a aperceber — a geração que agora começa a vida adulta está muito atrás financeiramente do que os pais estariam à sua idade. E não por falta de capacidade ou preguiça, mas porque o Mundo está muito diferente e não necessariamente para melhor neste 2026. Pandemias e guerras deixam a economia a anos luz dos prósperos anos 80 e 90, vividos na Europa e Estados Unidos da América.
Daí que a autora nos diga que os conselhos e directrizes de finanças pessoais até aqui vigentes estejam desactualizados. Lembra-nos que devemos pensar no nosso money mindset no sentido de se alinharem com os nossos valores e não com os de terceiros.
Por entre essas páginas, também são mencionados os sistemas de BNPL — Buy Now Pay Later, que devem ser usados com bastante precaução. Devo confessar, não sendo isto mais do que uma partilha pessoal — nem patrocínio, nem conselho — que utilizo imenso a Klarna, quase como banco.
E como gen Z, empregadora de mim mesma e pessoa com deficiência, que a Klarna me dá mais acesso ao dinheiro e a cash flow que qualquer banco tradicional português.
Penso que importa partilhá-lo, num contexto de tecido empresarial de Moda de pequenas empresas, por toda a Europa como já vimos noutros ensaios, importa dizer que a banca em Portugal ainda vê o empreendedorismo como side hustle, um complemento, um Plano B.
Somos (trabalhadores) independentes
Ao longo das minhas sessões de pitching sobre o TFS, várias vezes me perguntaram qual era o meu day job ou que fazia para além de ser independente. O que era para mim um pouco estranho.

Afinal, as histórias da primeira onda da blogosfera, por exemplo, não mencionavam a actividade como “side hustle”. Portanto, instalada a dúvida, usei as ferramentas do Design, que aplico, através do TFS, à Moda e fui perceber melhor a questão.
Descobri que grande parte dos criativos da Geração Z optam pelo freelance e pelo trabalho independente como primeiro emprego. Porquê?
Porque, para lá do actual mercado de trabalho mesmo entry level pedir experiência laboral que os recém licenciados ou mestrados ainda não têm, há algo mais importante que a estabilidade financeira… O sentido de propósito, a realização profissional, a concretização de paixões e a liberdade.
Provavelmente, esta será a razão da boa recepção ao dito comentário.
Não obstante, esta importância dada não é exclusiva da geração que dá os primeiros passos na construção de uma carreira profissional. A diferença está no facto de as gerações anteriores percecionarem o sucesso pelo olhar de terceiros e não dos próprios, não seguindo o padrão capitalista de sucesso.
Assim como o Gen Z tem maior probabilidade de ser trabalhador independente, também o têm as pessoas com deficiência (bingo!), já as mulheres no geral têm menos…
Bem, se as novas gerações saíram mais conservadoras que os boomers, talvez foi porque como um todo nos foi dito que éramos laranja pela metade (quantas amigas conheces felizmente solteiras?), se como mulheres internalizamos que vamos melhor pela vida com um par, porque haveríamos de acreditar que a nossa carreira será melhor sendo chefes de nós mesmas?
As respostas estão disfarçadas — fashion business manual(s)
Isto não quer dizer que negamos o dinheiro ou algo do género. Tansy E. Hoskins, no seu livro “The Anticapitalist Book of Fashion”, apela ao corte da relação intrínseca que a nossa sociedade capitalista criou entre o design e o dinheiro.

No prefácio de dito livro, a modelo Andreja Pejić escreve uma mensagem, que muito iria ressoar nesta nossa comunidade (e, talvez, também neste ensaio):
“Podemos viver num mundo socialista liberto, imortal e profundamente artístico, onde a Moda bela não é apenas para alguns. Onde a Moda ama a humanidade e a humanidade ama a Moda. Está na hora de desafiar o sistema, está na hora de virar as costas ao diabo que veste Prada e ao pensamento de que toda a gente anseia por ser tão oportunista como ela.”
Mas a busca não ficou por aqui, parte de mim sempre implementou as estratégias, que havia preparado para uma hipotética marca homónima, no The Fashion Standup.
Se no subtítulo menciono um disfarce é porque todos procuramos um manual da “adultez”, mas quando se trabalha em Moda esses guias estão dissimulados dentro dos livros de fashion business.
Ora “Fashion Brand Management: Plan, Scale and Market a Successful Fashion Business” de Alison Lowe, lembra-nos que os negócios de Moda, para além de dinheiro, seja em formato bootstrapping, através do “mom & dad’s bank” ou outros recursos, precisam de tempo para crescer. E esse tempo é de quem funda o negócio, o projecto, a marca. Tempo não se pode pedir emprestado. E, muitas vezes, como afirma Lowe, os projectos de Moda precisam de mais tempo para chegar à própria adolescência dos mesmos. Mas muitas vezes, a pressa de ver os resultados faz com que muitas marcas de Moda, mais ou menos convencionais, terminam antes de passarem a fase da primeira infância.
Já Toby Meadows no seu livro “How to Set up & Run a Fashion Label”, lista algo que devíamos ter em mente todos os dias, chamou-lhe “Going Solo”. De que se trata? Dos prós e os contras de trabalharmos a solo e, que me vou permitir parafrasear.

Do lado positivo encontramos: liberdade, criatividade/visão, controlo, escolha, recompensa financeira, work from home, escolha de pessoal, férias longas, flexibilidade.
O que já experienciei desta lista?
A liberdade de tomar as minhas próprias decisões. O não perder tempo em deslocações porque estou em regime work from home, claro. O poder implementar a minha criatividade exactamente de acordo com a minha visão. Sou eu a única a ter o controlo total do meu trabalho.
Foi minha a escolha de ter um grande espelho de moldura ondulada de veludo azul Klein como peça central do escritório onde trabalhar. Mas também tenho a flexibilidade de poder escrever ou fazer outras tarefas de trabalho sentada no meu sofá de bombazine cor-de-laranja, tão laranja quanto o logo do Substack.
Como contrapeso, contraste estão, constantemente ou de forma intermitente: falta de apoio, responsabilidade total, insegurança financeira, trabalhar 24/7, stress, solidão, falta de motivação, trocar um chefe por vários.
Quando se fala de apoio, é claro que tenho imensa sorte nas minhas amigas e na minha família que me apoiam imenso, mas não posso dar um brief para cada tarefa do meu trabalho.
E, ainda que a “escola de Moda” me tenha preparado bem para trabalhar autonomamente, a falta de motivação por vezes espreita. A responsabilidade deve assemelhar-se à maternidade, mas não tenho a certeza.

Não tenho vários chefes, na verdade estou a construir uma comunidade.
Consigo não trabalhar 24/7 e, está tudo bem. Digamos em voz alta — as mulheres têm de ser produtivas todos os dias a toda a hora, nós também podemos ser adultas e sentar-nos no sofá a jogar videojogos.
E, quanto aos manuais de ser um adulto funcional o Fashion Business Manual do Fashionary leva o ouro, afinal ensina-nos sobre cash flow, banca e bancos, impostos, entre outros.
Porque lutar pelo direito de ser chefe de ti própria, de não precisar de um plano B nem de metade de alguém, isso tem um nome. Chama-se Feminismo.
Desta vez, a conclusão é que este ensaio pode ser uma ferramenta para todos os feministas, homens ou mulheres. E, sim, provavelmente és feminista e não sabias.
Feliz Dia da Mulher!
Até breve!
Na próxima quinta-feira começa a ModaLisboa Pebbling, a nova edição da Lisboa Fashion Week, assim o nosso próximo ensaio terá um calendário e um formato diferentes.
Segunda-feira dia 16 de Março, o habitual dia da minha ressaca emocional, estarei convosco na app do Substack. Um livestream AMA — Ask Me Anything, portanto podes perguntar-me o que quiseres sobre a Lisboa Fashion Week ou sobre qualquer outra temática de Moda. Com laivos doces da minha perspectiva pessoal.
Podes participar mesmo sem usar a app Substack: responde a este email com a tua pergunta e vê a resposta à tua pergunta no replay que receberás pouco depois.
As novidades não se ficam por aqui, toma atenção ao teu email nos próximos dias… Não te vai arrepender!
Com amor,
Vera Lúcia



