Moda Também é Palavra
problema das Revistas de Moda como prompt

Portanto, este ensaio resulta de um prompt que lancei a mim própria sobre qual seria o problema das revistas de moda, qual o problema que enfrentam actualmente…
Fiz algumas reflexões pessoais, mas já sabem que uma Fashion nerd tem que investigar e foi exactamente isso que fiz. Tentar perceber se existe, realmente, problemas no modelo das revistas, no modelo de negócio… Naquilo que oferecem os leitores ou é só evolução social como tantas outras.
Ainda assim, na verdade todos enviamos WhatsApp, mas isso não acaba com os postais, por exemplo. Esta era uma analogia sobre a qual não tinha pensado mas enviamos postais a quem gostamos muito, portanto se calhar essa conexão que se perdeu.
Quando se recorre à técnica ancestral de pesquisar no Google “self-publishing in fashion”, os resultados dividem-se automaticamente em dois: self-publishing por um lado e guias de “como ter o teu trabalho publicado na Vogue”.
Também nos manuais de design de moda existem diferenças substanciais quando comparados aos manuais de escrita de moda. Nos primeiros preparam-te — com muitas aspas e de certa forma — para teres a tua própria marca, o teu próprio negócio. Nos segundos, preparam-te para seres aceite — numa revista de renome, pelos teus pares académicos ou por editores literários.
Ou seja, manteve-se e mantém-se o pensamento de moda fechado e enclausurado — mas a bolha começa a estourar, e existem já várias vozes a falar sobre moda.

Atenção, que eu não acho que toda a gente deva criticar e pensar a moda, e não o penso como forma de gatekeeping. Mas também ninguém está à espera que qualquer pessoa fale de medicina, por exemplo.
Eu faço. Ainda que tenha muito para aprender, porque tenho 26 anos, aos 11 anos comecei a desejar estudar design de moda, sim — actualmente tenho plena noção que o meu maior desejo sempre foi estudar design de moda mais do que ser designer de moda. E, portanto, fiz a minha licenciatura e mestrado, e tento não vir para aqui encher-te a cabeça de “achismos”.
Não obstante, precisamos de vozes independentes e muitas e resilientes quando temos plataformas de poder como a Vogue Business e The Business of Fashion a enviarem emails de breaking news sobre a Shein.
A minha pesquisa dividiu-se entre livros, artigos diversos, papers académicos e Substack. As minhas fontes desta semana, pela ordem em que procrastinei com elas: a Farrah Storr no “Things Worth Knowing”, a Laura Gardner em “Marginal Fashion Publishing” (2026), a Dovile Drizyte na System, e o Marco Pedroni a fazer o balanço de vinte anos de blogging de moda (2022). Chamo-lhe investigação. É investigação.
Nos diversos artigos científicos que encontrei pelo caminho, tinham temática nuclear o crescimento de media de Moda impressa em países cujo Sistema de Moda ainda está em desenvolvimento. Cheguei a questionar-me se seria sintoma de um Sistema de Moda desenvolvido o desaparecimento da imprensa de Moda como temos vindo a testemunhar, também, em Portugal?

Não cheguei a uma resposta. O que sei é que quando vejo uma nota de Substack a elogiar uma capa ou editorial da Vogue — é inegável que sinto alguma espécie de orgulho nacional… Mas ao mesmo tempo tenho saudades dos artigos de antes — os da Irina Chitas, os da Patrícia Domingues, entre outros.
Pedroni defende que as revistas de Moda como a Vogue americana não estão a perder a legitimidade ou poder, mas a atenção dos leitores concorre agora com muita informação e diversas plataformas, com destaque para a afamada TikTok.
Sendo que, segundo o autor, esta atenção é direccionada para conteúdos nos quais se possam rever. Por falta desse efeito de espelho, segundo Gardner, é que nascem as revistas de Moda marginalizadas — no sentido de que estão à margem. Laura destaca o facto de as revistas mainstream estarem presas pelo próprio modelo de negócio dependente de anunciantes, o que coloca a verdadeira crítica de Moda dentro destas publicações à margem.
Tanto neste livro como no artigo da System ficamos a conhecer o fascinante mundo interior da Vestoj pela sua fundadora Anja Aronowsky Cronberg. Detalhando daria origem a um outro ensaio à parte. Anja revela que o seu modelo de negócio não é propriamente um modelo de negócio — só edita uma nova edição quando tem fundos para o fazer. Sendo a própria o único membro da equipa da Vestoj.
Entre o facto de Laura Gardner mencionar que projectos de media e publicações de Moda de nicho são projectos com base em valores éticos e de missão, não havendo qualquer menção a lucro — e a defesa feita no supramencionado artigo aos meios físicos face aos meios digitais — fiquei um pouco desesperançada.

Esperança recuperada pelo ensaio da Head of Substack International, Farrah Storr. Uma perspectiva cândida e a descoberto em termos de que prismas escrevia as suas palavras. Artigo sobre o qual não vou aprofundar, uma vez que se trata de um post com paywall. Mas devo dizer que fiquei a desejar tê-lo lido antes de ter escrito o ensaio da semana passada — fiquei, inclusivamente, a entender melhor o filme.
Como te disse, às vezes decido dar um prompt a mim mesma, como é o caso de me pôr a pensar qual será e como se lida com o problema que as Revistas de Moda enfrentam.
Claro que isto também está contaminado pela minha própria perspectiva.
Se, por um lado, não quero ter uma revista nas minhas mãos que só tem anúncios e imagens bonitas mas falta textos com profundidade — porque a moda também é palavra. Por outro lado, se compro uma revista mais teórica, com longos e bem escritos artigos, a vida acaba por acontecer e acabo por não a terminar antes de ser lançada a edição seguinte.
Mas, antes de te dizer até para a semana como é nosso costume, temos de fazer um pequeno apontamento sobre as colagens aqui presentes, não é? Por que escolher o escritório de Franca Sozzani e tantas outras imagens que lhe fazem referência?

Primeiro, como prova o facto de se ter deixado fotografar por Into the Gloss — é uma das provas de como soube abraçar o digital sem o negar. Depois porque quem mais do que Franca, quem melhor que Franca, soube pôr as revistas de Moda impressas — claro — no centro da conversa em diferentes quadrantes da sociedade?
E, por último, o mais complexo de explicar — estou com uma enorme febre de Hacks (sim, a série — ver reels e shorts de Youtube foi a razão de toda e qualquer procrastinação da minha parte ao longo da semana), sendo a admiração por Franca Sozzani algo que a minha Deb me ensinou — pronto, é isso… Já perceberam, ou talvez não, bem, avancemos.
Temos também Anna Wintour a contemplar Nova Iorque pelas paredes envidraçadas do seu escritório, em contraponto com o futuro dos media de Moda no Substack. Imagem que também encontra contraponto na vista desde os escritórios da plataforma. Sem esquecer a imperatriz do Substack — a cool girl com badge roxo (dado a quem tem mais de dez mil subscritores pagos), Emily Sundberg — e uma referência à 1 Granary.
Enquanto Alexa Chung olha para dentro da Vogue, relembramos um dos primeiros filmes a abordar o mito das editoras de Moda — “Funny Face” de 1957, um dos mais bonitos marcos na amizade de Audrey Hepburn e Hubert de Givenchy.

Como defeito de estudante de mestrado, ficou-me o hábito de fazer pesquisa em papers académicos — mas tal como já confessei, esta semana procrastinei, e o que li dos papers que guardei? Maioritariamente, conclusões. Então, para este ensaio: estilo académico, unfiltered.
O que quer isto dizer? Quer dizer que efectivamente tive diversas linhas de pensamento sobre o assunto, não chegando a uma resposta conclusiva única. Mas em vez de fazer recomendações para estudos futuros, pergunto-vos a vossa opinião sobre tudo isto. Opiniões essas que fico à espera de ler nos comentários.
Até para a semana!
Com amor,
Vera Lúcia


