O caso dos intelectuais de Moda

Eu era nerd que lia a Vogue e a Teen Vogue no intervalo das aulas e papers académicos sobre empreendedorismo e moda, da autoria de quem viria a ser a minha orientadora de dissertação, durante as aulas de educação física do secundário (eu tinha atestado médico para não praticar exercício físico).
É estranho ou demasiado contra corrente falar de intelectualismo na silly season… mas eu nunca adorei o mês de Agosto. Desculpem, mas a TV vendeu aos Gen Z Verões demasiado entusiasmantes…e depois nada tão extraordinário acontece neste mês tão extremamente quente. Do que eu sempre gostei foi de ser geek, desde que fosse geek da Moda.
Comecemos pelo início, se falamos semana após semana sobre Moda precisamos de definir o que é ser-se intelectual. O Cambridge Dictionary apresenta as definições de intellectual tanto em inglês britânico como americano e são as seguintes:
Inglês britânico — “uma pessoa muito culta, que se interessa por ideias complexas, gosta de estudar e aprecia um pensamento cuidado”;
Inglês americano — “uma pessoa cuja vida se centra em torno do estudo ou do uso das ideias, através do ensino ou da escrita”.
E o que dizem os filósofos sobre o que é ser-se intelectual? O filósofo norte-americano Steven Fuller em entrevista a Filip Šimetin Šegvić afirma que um intelectual “é alguém que vive da produção e distribuição de ideias”.

Quando perguntaram ao teórico, crítico e jornalista Alexander Fury se a Moda poderia ser intelectualizada respondeu que sim, havendo contudo uma matiz. A matiz do equilíbrio, porque a seu ver, ou se intelectualiza muito pouco a Moda ou intelectualiza-se demasiado a Moda. Fury diz que até ele próprio tende a intelectualizar a Moda de tal forma que na análise de determinadas colecções acaba por procurar demasiadas camadas de sentido e significado.
Das primeiras designers de Moda a ser também escritora, materializando assim o seu intelecto foi Elizabeth Hawes. O livro “Fashion is Spinach” da sua autoria, ainda que publicado em 1938, continua a ser uma referência até hoje para muitos estudiosos de Moda.
Através do estudo de Sarah E. Cornish “Fashion is Spinach, but style is politics: Elizabeth Hawes’s functionalist feminism”, podemos compreender como estando dentro do próprio Sistema de Moda, Elizabeth teorizava criticamente sobre ele e sobre a própria sociedade. Feminista, sem o afirmar, através da sua escrita, da distribuição das ideias, acabava por defender o Design aliado à Moda e o Design de Moda. Uma vez que defendia que a Moda devia cumprir propósito e função para lá de mero adorno.

Actualmente, nas últimas décadas melhor dizendo, uma das designers que se considera, de forma mais unânime, intelectual no sentido britânico é Miuccia Prada. Em 2016, na System Magazine a si dedicada, a Signora Prada explica, em entrevista a Tavi Gevinson (figura maior desde de tenra idade nos inícios da blogosfera de Moda e intelectual nesta área, no sentido americano) o seu famoso apelo ao estudo.
Muitos são os vídeos nas redes sociais nos quais Miuccia Prada no seu charmoso sotaque italiano diz “Study, study, study!” A Gevinson diz que é esse o conselho que dá quando lhe perguntam como se ser elegante, defendendo que se deve estudar Moda, Cinema, Literatura e até Psicanálise.
Também à System Magazine, desta feita em 2026, a stylist Gabriella Karefa-Johnson defende que o Substack traz à Moda crítica mais rigorosa. Nesse mesmo artigo, no qual é entrevistada a fundadora de Brain Matter — “Platform. Substack”, é citado um dos co-fundadores da plataforma Hamish McKenzie na sua defesa de que se trata de um network de pessoas que se interessam e se importam com a cultura. Assim sendo podemos concluir que o Substack é terra de intelectuais.

Segundo o que investiguei por um lado há quem tenha de ser performativo para continuar a ser relevante como influencer, por outros cria-se um novo espaço.
Espaço para os intelectuais, que podem escolher novos espaços para exercer o seu metier para lá da Academia. E, isso também acontece na Moda. Porque acredito, genuinamente que, só nas rom coms dos anos ’90 e 2000 é que Moda e Intelecto e Inteligente são inconciliáveis.Não me mal interpretem — eu até gosto de algumas comédias românticas, não gosto é de estereótipos.
Já Fuller, a quem voltamos, discorda que os académicos sejam intrinsecamente intelectuais. Argumenta ainda que para se ser intelectual, o sustento desse indivíduo não pode estar dependente da popularidade ou validação das suas ideias.
Há que dizer que eu não fiz imensa curadoria do que está atrás de mim da minha secretária — é claro que gosto de ter as minhas estantes atrás de mim, mas não organizo a ordem dos livros pela ‘aesthetic’, mas uma ordem muito especifica que na minha cabeça é a única forma de o fazer, mas não sei verbalizar o sentido dessa mesma ordem.

Porque explico ou tento explicar esta questão? Porque fui ler sobre a suposta trend de intelectual influencer, já que intelectual eu acho que sempre o fui…
Muitas são as fontes que afirmam que os livros, as turtle necks e óculos usados por intelectuais na Internet são meros adereços. E ainda que, eu goste de uma boa turtle neck — estilo Audrey Hepburn no Funny Face (1957), se bem que as minhas formas, seria mais ao estilo de Brigitte Bardot — os meus óculos são uma absoluta necessidade. Também adoro óculos, mas vejo tão mal que se estiver sem óculos, ouço mal, a sério!
Por esta altura, se tens acompanhado estes textos aos quais gosto de chamar ensaios já te apercebeste que os Estudos de Moda em si mesmos são um pilar de conteúdo desta newsletter. Não tendo sido planeado, mas algo que se foi construindo, acabam por ser exemplo disto o ensaio sobre Elise by Olsen ou o ensaio que explora a relação do Substack com a Moda.
Se falei das designers Elizabeth Hawes e Miuccia Prada e, de outras figuras ligadas à Moda e não só, porque não são essas as imagens que ilustram as colagens deste ensaio?

Este novo movimento de nerds de Moda tem trazido para o digital, para os feeds imagens de arquivos magníficas — eu deixei-me inspirar. Como? Indo buscar — não às gavetas, mas ao meu potente iCloud — fotografias dos arquivos da Associação ModaLisboa (organização responsável pela Lisboa Fashion Week). Arquivo esse que tive o privilégio de consultar e fazer registo.
Claro que esse também foi o período mais intelectual da minha vida, que desencadeou a minha metamorfose numa aproximação ao que Fuller descreve como intelectual. Uma intelectual de Moda.
Até para a semana!
Com amor,
Vera Lúcia


