A Moda Entra no Museu Gulbenkian
Arte e Moda em Lisboa

“A moda passou a estar na Moda - literalmente-, como um bem de pleno direito no seio das instituições culturais. Quebrando o teto de vidro das belas-artes, e graças ao alargamento do conceito de património e da sua extensão até à actualidade.”
As palavras que nos servem epígrafe são de Helena López de Hierro d’Abarède - que assina “A moda musealizável”, texto integrado no catálogo da exposição “Arte e Moda” do Museu Calouste Gulbenkian. Sendo a exposição o tema central deste ensaio, e Helena directora do Museo del Traje, Madrid — instituição que colaborou com a Gulbenkian neste projecto.
Curiosamente — escrevo curiosamente, porque não foi premeditada a coincidência -, visitei a exposição que coloca em diálogo Moda e Arte em Lisboa, na primeira segunda-feira de Maio… Poucas horas mais tarde teria lugar em Nova Iorque o MET Gala sob o tema “Fashion is Art” inaugurando a exposição “Costume Art”. Mas centremo-nos em Lisboa…
Magnânima e Terrena
Centremo-nos na exposição em si mesma, foi uma experiência singular — por ser tanto magnânima como terrena. Sei que a questão de terrena pode parecer ou soar estranha, mas eu explico. Quando visitei a exposição “Christian Dior: Designer of Dreams” no Victoria & Albert Museum, em Londres, corria o ano de 2019 — com 18 anos pensei que estava a visitar o céu…
Mas ao mesmo tempo sentia-me pequena e insignificante. Claro que esse dia foi dos mais bonitos que vivi, sim. Mas com a perspectiva que só tempo nos pode dar percebo no intuito da exposição, na camada mais profunda estava o mostrar a Moda e mais, especificamente, a Dior como inatingível.
A Distância de Esticar o Braço
Contudo, esse não foi o intuito de Eloy Martinez de la Pera, curador da exposição “Arte & Moda”, no museu Gulbenkian tanto a Moda como a Arte estão ao nível de todos os visitantes. Aqui a ilusão de acesso às mesmas torna-se real — a Moda está à distância de esticar o braço, a sua fruição está ao alcance de todos.

Esta foi uma exposição na qual me permiti apreciar a beleza pura, sem etiquetas — não houve a tentação de “ah tenho de apreciar isto porque é uma criação de Worth, o pai da Alta - Costura”. Em grande parte, porque para conseguir a legendas, míope como sou, tinha de fazer umas posições de yoga um pouco arriscadas.
Aqui e não só entra a importância, para mim e no meu processo o catálogo de exposição e o seu estudo. Mas primeiro falta falar da emoção, foi uma visita emotiva, uma emotividade feliz e irracional. Agora que faço exercício de a racionalizar percebo que não só é emotivo testemunhar a primeira exposição de Moda desta magnitude que acontece em Portugal.
Assim como saber que à distância de poucos metros posso admirar um vestido de Fortuny e outro de Alves/ Gonçalves; um coordenado Béhen está frente a frente em diagonal a um vestido Schiaparelli, não são assim tantos os passos que distam entre um coordenado de Jean Paul Gaultier, de Azzedine Alaïa, de Guo Pei, de Kenzo, de Sarah Burton para a Givenchy de peças de Storytailors, Nuno Baltazar, Maria Gambina, José António Tenente.
E até partilham, finalmente, o mesmo espaço em Lisboa Nuno Gama e John Galliano.
Ao rever as quase duas centenas que tirei apercebo-me de que me foquei demasiado na parte de Moda e não fotografei muito a parte da Arte. Isso diz muito sobre mim, não diz? Pronto, no meu inconsciente a Moda é Arte, sem reticências sem justificações e sem debates — é e, ponto final.

Algo que durante a exposição me cativou bastante foi o dialogo entre a estátua de Canova e o coordenado de Jan Taminiau, que figura na capa do ensaio e que interpretei como um convite à reflexão sobre a sociedade, num momento em que no nosso país muitas pessoas não sabem diferença entre burka e hijab, e em que muitos são aqueles que escolhem a descriminação em detrimento do abraço ao multiculturalismo.
Uma exposição multicultural, um esforço conjunto de praticamente 4 anos, que juntou diferentes instituições culturais do MUDE — Museu do Design à Foundation Azzedine Alaïa. Esforço esse que ganha forma em vários núcleos expositivos de “Diz-me o que vestes, dir-te-ei quem és” a “Deuses e deusas.”
O Senhor Cinco Porcento e a Mesada de Nevarte
Agora que já leste até aqui podemos falar do “casal patrocinador” desta exposição que, de certa forma, não deixam de ser os Gulbenkian.
Em Portugal, Calouste Gulbenkian é sinónimo de filantropia e cultura, contudo para o mundo é conhecido como o “Senhor cinco porcento”. Percentagem que recebia por toda a produção petrolífera do Médio Oriente.
A conservadora do Museu Calouste Gulbenkian Vera Mariz lembra-nos que, nas suas escolhas de Moda, Nevarte Gulbenkian estava dependente da mesada que lhe era dada pelo marido. Algo que constrangia Nevarte, daí que venha a pedir a Gulbenkian um aumento da mesada.
Mesada que era então de 60 mil francos — que ao poder de compra actual seriam 250 mil euros. O que naquele então era um montante que equivalia a mais de 60 anos de salário de um trabalhador de extração de petróleo.

Sinto que estou a cometer um sacrilégio ao levantar tais questões sobre os Gulbenkian… Mas tenho como única pretensão colocar a seguinte pergunta: o que pensaríamos do Sr. Calouste e da Sra. Nevarte se fossem nossos contemporâneos?
Ainda assim, um dos homens mais ricos que o mundo já conhecera tem dois ensinamentos sobre Moda a transmitir à contemporaneidade no que à Moda diz respeito.
A primeira é o facto de Calouste, ainda que nunca tenha vivido dificuldades económicas, fazia questão que as peças que compunham o seu guarda-roupa fossem reparadas até serem consideradas “irrecuperáveis” pelos seus alfaiates de confiança.
A segunda prende-se como o facto de ao longo da sua vida, Gulbenkian comprar e coleccionar Moda para pura contemplação - como uma peça da autoria de Jeanne Lanvin, presente na exposição e que Calouste nunca vestira mas que muito contemplara. E que, anos mais tarde, viria a oferecer à sua filha Rita.
Gulbenkian percebia, profundamente, a diferença entre mero vestuário e a Moda. Daí que muitas das assinaturas das publicações e imprensa a esta dedicadas que chegavam às moradas da família, não estivessem nem nome de Rita ou Nevarte, mas de Calouste.
O que é, sem dúvida, inquestionável, é que esta exposição abre a porta à legitimação da Moda , como Arte que se estuda e se contempla.
O Tecto de Vidro
Porque a verdade é que, para lá da nossa bolha da Moda, existe um vasto de número de pessoas que não valorizam a Moda em toda a sua extensão, mas tem como “cultura superior” tudo o que tem lugar na Gulbenkian. Assim, ao abrir pela primeira vez, na forma de exposição, as portas à Moda - a Fundação Calouste propaga a esta “elevação” para a Moda perante os olhos do público português no seu todo.

Talvez ao abrir este email ou post de Substack, pensasses que irias ler uma crítica à exposição no seu todo. Contudo, se este não for o primeiro ensaio do The Fashion Standup saberás que uma crítica canónica não é o meu forte.
Uma crítica de fio a pavio é algo que poderás pedir ao teu IA de confiança. E se te contasse tudo irias visitar a exposição? Podes fazê-lo até 21 de Junho de 2026,
A entrada é gratuita para menores de 18 — a entrada custa 8€, com descontos para menores de 30 anos, maiores de 65 e para pessoas com deficiência. A exposição está aberta das 10 às 18h, até às 21h às sextas-feiras, sábados e domingos. A Gulbenkian aconselha a compra antecipada dos bilhetes para visitas ao fim—de-semana.

Ah, e não te esqueças — tal como me aconteceu a mim, que ao contrário dos restantes museus portugueses a Fundação Calouste Gulbenkian não fecha à segunda-feira, mas sim à terça.
Se visitares a exposição “Arte & Moda” depois de leres este ensaio adoraria receber as tuas opiniões e fotografias nas minhas DMs do Substack.
“A moda, que nasce para morrer a cada estação, encontra no museu a possibilidade de travar o tempo, a arte; que aspira à eternidade, vê-se rejuvenescida ao dialogar com o contemporâneo.”
-Eloy Martinez de la Pera
Até para a semana!
Com amor,
Vera Lúcia


