
Confesso que estava hesitante em escrever o ensaio de há duas semanas em que recapitulei três semanas de Moda pondo o foco na perspectiva das marcas e dos designers. Mas como vocês deram a vossa opinião — que foi bastante positiva…
Cá vamos nós… Não é “outra vez” porque desta vez seguimos para Londres e Milão
Tendo uma questão bem presente…
Será que os press releases das marcas ou as memórias descritivas dos designers são lidas? Ou serão só fotografadas como memorabilia para um story?
Estive embrenhada por entre dezenas e dezenas de press releases e memórias descritas… E, alguns posts de Instagram (dependendo da comunicação das marcas) para vos trazer este segundo volume de recaps.
Semana de Moda de Londres
Steve O Smith tirou partido da sagacidade acidental como acto criativo. Smith assume que o calor extremo que assolou a Europa também afectou o seu estúdio e deixou que tal transparecesse para a sua colecção “Fever”. Nas propostas inspiradas pelo pintor André Derain nas quais as tintas, das pinturas características do designer inglês, secaram e espessaram rapidamente, algo que foi assumido. E, este foi o momento em que se desafiou a não usar preto e, cumpriu.

Simone Rocha descreve a maioria das silhuetas e formas da sua colecção como “casulo” ou “bolha”. Numa colecção que tem como epígrafe uma frase de Caravaggio sobre amor e sonho. Cores apelidadas de “azul Caravaggio” ou “vermelho sangue”. Esta Primavera/Verão tem ainda como linhas -guia as expressões: “pequenos actos de generosidade”; “expressões de intimidade através da roupa”; “símbolos de afecto”.
Richard Quinn focou-se em falar da marca, mais do que da colecção (segundo o que li, claro está). Falando de construção de marca, terá dito que para uma marca se perpetuar , enquanto está em construção, tem de se estar saturado com aquilo que se faz. Já a colecção, Quinn descreve-a como sendo sobre o hiper-glamour dos anos 80.
A Letter, de Matt Empringham e Freddy Coombes, teve aparentemente uma apresentação muito genuína na qual foram os próprios a fazer as trocas de roupa às modelos durante o desfile. Nesta primeira vez que apresentaram a colecção no corpo, começaram a pesquisa por peças St. Michael (a antiga linha de roupa da Marks & Spencer) que foram comprando na Vinted. No resultado final tiveram como objectivos, entre outros, deixar visível a imperfeição.
McQueen afirma ter apresentado anjos na escuridão. Partindo da ideia de que a cidade de Londres tem inerente a tensão entre a modernidade e o historicismo. E tendo como objectivo a subversão das tradições de Savile Row, tão associada ao próprio McQueen.
Erdem, em muito poucas frases, fala-nos da tensão dinâmica das formas masculinas e femininas. E diz-nos que a colecção abraça as possibilidades, a beleza e ambiguidade do espaço entre identidades.
Edeline Lee parte do mito de Sísifo — se tal como eu não estás a ver de que se trata, era, segundo o mito grego um rei que queria fazer de tudo para enganar a morte e como castigo, os deuses faziam-o rolar uma pedra pesada para o topo de uma montanha, a pedra era pesada, rolava para trás e, lá voltava ele repetidamente à base, como um ciclo vicioso para trás. Lee representa este mito que é um fenómeno que acontece com as bailarinas em busca da perfeição na sua arte. Onde o esforço e sacrifício se transforma em beleza e graciosidade.
Harris Reed criou, para a colecção que marca o quinto ano de apresentações na London Fashion Week, “Loud Whispers”. Estando esse pulsar em alto e bom som presente nas formas exageradas, enquanto o branco puro e o marfim são o sussurro.

Burberry serviu dois propósitos nesta colecção e neste desfile,: trata-se de uma colaboração e de uma homenagem a Celia Birtwell. Designer têxtil que aos 85 anos continua a escrever a história da Arte e Moda britânicas, que se materializa neste desfile que decorreu no local onde durante muitos anos Celia leccionou — Chelsea College of Arts.
Francesca Lake traz à passerelle uma visão própria, que caracteriza como leve, de um dos aspectos da sua herança jamaicana — as tradições relativas ao funeral.
Mulberry vê o regresso, aos ciclos da Moda, de Christopher Kane, o novo director criativo da marca, que reconhece que nesta colecção imprimiu muito do seu cunho pessoal ao mesmo tempo que quis começar na Mulberry com uma estética “moderna e clean”.
Mithridate, pela mão do director criativo Daniel Fletcher, teve como inspiração para a próxima Primavera/Verão uma mistura de referências: New Romantics; Londres da década de 1980; as eras Victoriana e Eduardiana; dar prioridade às proporções numa multiplicidade de formas.
Semana de Moda de Milão
Sportmax - a primeira frase e a última oração do comunicado de imprensa da marca para esta colecção são tão intensas e tão fortes que devem ser citadas: “A colecção SS27 da Sportmax nasceu da intensidade de uma canícula, de um calor abrasador que varreu o mundo, e imprimiu em cada peça o desejo de leveza. (...) A Sportmax aproveitou o calor para dar forma a uma leveza impossível e a transparências cheias de nuance.”
Gucci apresenta uma carta de Demna como press release. Carta na qual diz que esta é primeira colecção com a sua total visão pessoal. Inspirando-se na loja da marca em Londres, representando a ideia de Demna de a Gucci é um espaço de possibilidades, onde cada um se pode tornar naquilo que escolhe ser.

Prada assume que a saia é uma obsessão e esta colecção é exactamente “The Skirt”, sendo, para a marca, pensada para a liberdade. Como nos é dito, a funcionalidade e a estética podem trabalhar em conjunto, como a utilização de Velcro que tanto pode ser base de um bordado de cristais, como forma de fecho da peça que também altera as formas e silhuetas da saia. “Uma saia pode ser abstrata, um fragmento de um todo cuja relação com as peças que lhe são justapostas vai mudando: uma camisola, uma camisa ou um top de lingerie podem sugerir, cada um, leituras diferentes do conjunto.”
Jil Sander sempre foi tida como o supra-sumo do minimalismo, mas tal como diz o actual director criativo da marca, Simone Bellotti o minimalismo, hoje em dia, é mainstream. E é aí que entra a imperfeição estudada ainda que inesperada, numa dicotomia entre o uniforme e a vulnerabilidade.
Marni diz que esta colecção trata de descoberta para um novo capítulo. Sendo a intenção observar o que está para lá da superfície; descobrir a verdade; saber o que está para trás para antecipar o que virá.
Moschino tem novos directores criativos — Loris Messina e Simone Rizzo (Sunnei) — muito se escreveu sobre esta estreia, mas da parte da própria Moschino não se soube muito. Ao entrarem para marca terão dito que queriam homenagear o trabalho de Franco Moschino sem o imitar. Foi anunciado no Instagram que o desfile não teria transmissão em directo, informação a que acresce o que poderá ter sido o mote da colecção: “The pleasure is all yours!” Para o desfile os designers recrutaram 400 figurantes (amigos, fashion insiders, etc.) para partilharem a passerelle com as modelos.
Giorgio Armani decreta ‘Evoluzione’ com uma atitude distinta perante elementos familiares à marca. O objectivo primordial? Um diálogo contínuo entre mudança e continuidade.
Antonio Marras retrata uma noite em Alghero (Sardenha, Itália): a celebração e o sonho misturam-se. A meio desse dia celebrara-se um casamento, quando na noite anterior se celebrara o São João, e os looks acompanham quem festeja continuamente.
Blumarine misturou universos. A década de 70 com os anos 2000 (mais conhecidos actualmente por Y2K). A ingenuidade que se transforma numa ‘bombshell’ da costa cinematográfica da Califórnia.

MM6 Maison Margiela dá o poder ao utilizado, ele/ela é que sabe como usar a peça. Já que, como lembra a própria marca, a roupa vem com instruções, ainda que ninguém as leia. O número 6 está da cabeça aos pés, ou especialmente no pés, com a colaboração com as Havaianas — com chinelos com espaço para seis dedos.
Missoni apresenta o que descreve como “Missonism: uma forma única e reconhecível de trabalhar a linha e a cor”. O mar é elemento de inspiração, mas não da forma mais óbvia. É referência de imediatismo, imediatismo esse que transparece na forma de vestir mesmo que possa parecer arbitrária ao outro.
Vogue World, ainda que muitas vezes tenha de recorrer à app da Vogue para saber qual a intenção dos designers, porque por mais que busque não encontro informação em mais lado nenhum (e quem me conhece sabe como posso ser persistente), eu na verdade não acho relevante saber a inspiração ou propósito de mais uma edição do Vogue World. Consigo ver o Vogue World em dois prismas. é como uma série que só foi pensada para ter uma temporada e depois quiseram fazer mais temporadas e esticaram a narrativa de forma forçada. Ou pode ser aqueles filmes de Natal super pirosos mas se adorares o Natal, não consegues não gostar de tais filmes, mesmo que queiras. Faz sentido? Pronto, é isso.
O próximo ensaio terá o formato de vídeo, sairá, excepcionalmente, à segunda-feira. E porquê? Porque de quarta-feira, dia 7 a Domingo, dia 11 a minha existência irá girar em torno da ModaLisboa Priority | Lisboa Fashion Week.

Se bem que na verdade já tivemos um evento pré-fashion week, a inauguração da Pop-up da ModaLisboa em co-organização com a House of Curated. Decorre até Domingo, dia 11, portanto não percas a oportunidade de comprarModa portuguesa, independente e de autor a óptimos preços.
Mas eu já vos disse que sofro de um fenómeno chamado “Ressaca de Moda”, portanto preciso das vossas perguntas sobre a Semana de Moda de Lisboa. O que gostavas de saber? Que curiosidades tens sobre ModaLisboa Priority?
Responderei o melhor que souber e poder, mas não sei ler mentes… Por isso, vais mesmo ter de perguntar.
Até para a semana!
Com amor,
Vera Lúcia



