
Sim, quando te digo “Até breve!” é porque o ensaio seguinte não chegará, exactamente, uma semana depois, mas sim um pouco antes.
Sabem que eu escreveria sobre a ModaLisboa até ao infinito e mais além, mas estou sempre a tentar controlar-me para que cada uma destas cartas de amor à Moda que escrevo, semanalmente, caiba num email…
Portanto, aqui vamos nós para a segunda parte do quarto dia e para o último dia de ModaLisboa PRIORITY…
(Sim, o report da conferência internacional da Moda Portugal será o teu presente pós-Natal!)
(Parte do) Dia 4


Roselyn Silva
“THE BIRDS COLLECTION, a coleção primavera/verão 2027, nasce de São Tomé e Príncipe. No centro estão os pássaros endémicos, jóias vivas de uma biodiversidade única, hoje em vias de extinção.
Para lhes dar vida eterna, Roselyn Silva convidou o artista Blackson Afonso, seu marido, para os pintar à mão.”
Esta é a terceira apresentação de Roselyn Silva na ModaLisboa e, se algo é claro desde a primeira coleção, é que, apesar dos looks em color blocking e das silhuetas maioritariamente em I, o seu forte — o seu ponto distintivo — são os estampados. Não só por serem visualmente cativantes, mas por o que está por detrás, as origens da própria designer em São Tomé e Príncipe.


Gonçalo Peixoto
“(…) não é uma viagem ao passado, é um lugar de interrogações: quem somos? Para onde vamos? O que fica?
(…) é um espaço de procura de respostas, num lugar de conforto, quando o futuro nos parece estranho. (…)
Por isso, tudo começou numa fotografia da mãe do criador.
(…)é também a consciência de que há sempre espaço para (re)imaginar o caminho, sem perdermos a humanidade do fio invisível que nos liga a quem somos.”
Gonçalo Peixoto impulsiona-nos também a ia ir comprar as suas peças, claro está, mas também a explorar os armários das nossas mães e a usar e abusar dos tesouros que por lá encontramos.
Também nos fala de diversas formas de expormos o nosso corpo, conforme nos sintamos mais confortáveis. Será com uma camisa aberta para um decote vertiginoso, um vestido sem costas ou um vestido totalmente transparente?


Kolovrat
“LUGAR COMUM
(…)
Estamos a voltar atrás. E, desta vez, trazemos tudo o que aprendemos.
Sentimos falta de rituais, de momentos de conexão. Vivemos numa certa nostalgia do reconhecimento e, por isso, acabamos por recriar esses rituais, revelando-os através da roupa, das redes sociais, para nos conectarmos, para ampliarmos as nossas silhuetas e a nossa persona, para sermos vistos.”
Só a curiosidade cultural de Lidja Kolovrat consegue juntar diferentes padrões gráficos, manipulações têxteis diversas, uma reinterpretação de bordado inglês (naqueles mini buraquinhos, estão a ver?) e um estampado gigante de girafas e criar uma coleção equilibrada. Há diversidade e variedade de elementos e há coesão e, isso é tão Kolovrat.


Nuno Baltazar
“Cabinet des Curiosités transforma-se assim numa metáfora do processo criativo: um arquivo íntimo onde referências de diferentes momentos, personagens e linguagens coexistem e são reorganizadas através de uma visão contemporânea.
(…)
Este primeiro ato marca a procura de um novo caminho, mais autoral, que reúne os códigos estéticos NUNO BALTAZAR de forma livre, sem estações ou formatos rígidos.”
O meu closet já conta com várias peças de Moda autor portuguesa e, de facto, para além de muito me orgulhar desse facto (basicamente, eu não poupo — eu invisto em Moda portuguesa de Autor. Não só é totalmente verdade como esta frase ficava bem num billboard ou assim…), o designer de que tenho mais peças é o Nuno Baltazar. E, como as adoro, estava consciente dos dois propósitos com os quais ia ao desfile — contar-vos e escolher o que haveria de comprar na próxima pop-up store.
Sim, agora vem o mas… E, atenção, há que dizer que a ModaLisboa dá aos designers a liberdade de fazerem as suas escolhas de forma a apresentarem as suas coleções consoante a idiossincrasia de cada um. Nuno Baltazar escolheu apagar grande parte das luzes e ter uma banda sonora com gatos a miar e alusiva ao circo.
Na primeira coleção com jogo de luz e sombras, tratando-se de bridal, consegui perceber a coleção. Desta vez não, sinto que não vi a plenitude da coleção, sinto que não a percebi e não a compreendi como devia. A minha fobia de circo e de também de gatos, não ajudou é certo…
Dia 5


Helena Vaz Pereira
“Mais do que uma peça de vestuário, o corte de cabelo, a cor ou um styling podem transformar a forma como somos vistos. (…) VESTE-ME explora a capacidade que o cabelo tem de construir o estilo de cada um de nós e de criar uma linguagem própria, sem que seja necessário acrescentar mais nada.”
Se não queres cortar o cabelo, nem mudar a cor, nem sequer queres pensar em mudar o penteado que usas todos os dias, avança e esquece o que viste… Porque é, exactamente, o desejo de aventuras de cabelo que este desfile provoca em ti. Lembras-te daqueles livros mega aborrecidos de cortes de cabelo dos cabeleiros de aldeia? Agora, pensa no exacto oposto. Um completo clímax eterno de textura e empowerment daquilo que não se despe… mas que se corta!


Bárbara Atanásio
“Brinca com brinquedos de menino e de menina, e as fronteiras são linhas imaginárias que lhe disseram existir. Porque aquilo que é claro, claramente não é.
Vive na recusa da obrigação de fazer sentido. (…)
Num tempo etiquetado, ser contraditório é um ato de resistência.
Porque talvez a coisa mais funcional que possamos vestir sejamos nós próprios.”
E see miúdos fixes tornassem a roupa dos betos sua? Esqueçam os blusões do logo do jogador de pólo, que os de Bárbara Atanásio são muito giros e cool.
Talvez não tenha sido essa a intenção da designer, mas existem dois detalhes na coleção que muito me chamaram por serem inclusivos para pessoas com mobilidade reduzido. Falo dos botões de pressão em várias camisas e de calças de ganga abertas a cerca de meio da barriga da perna.


Çal Pfungst
“Não me lembro de ter dado um salto.
Um sobressalto. O mundo passa, ou o tempo, e eu por um fio.
ALOOF é cronocinese, ventania, prestidigitação.”
Çal Pfungst deu continuidade à sua experimentação, mas com uma vibe de “bora lá divertir ao vestir-me para um dia normal”. Sim, as peças são divertidas e vibrantes e, ao mesmo tempo, podes vesti-las ao acordar de manhã para depois apanhares pelo menos dois autocarros e percorreres uma linha de metro para chegares ao trabalho.


DuarteHajime
“Para a primavera/verão 2027, a DuarteHajime troca as salas de concertos envoltas em fumo pelo horizonte sem fim. HIGHWAY CRUISE presta homenagem à cultura nómada dos motociclistas, captando a dureza, a liberdade e a irmandade da estrada, onde o espírito rebelde do rock ’n’ roll encontra a liberdade sem lei da estrada aberta.
(…)
Unidos pela temível caveira de dragão e pelo título “Apex Drifter (…)”
Devo dizer que estive a ponto de passar este desfile em videochamada com a minha mãe, durante a apresentação de DuarteHajime, ela estava a trabalhar, mas não queria ter perdido o desfile da DuarteHajime.
Quanto à colecção, acho super interessante como a designer Ana Duarte dá continuidade ao streetwear para lá dos primeiros anos da marca, mostrando que não se trata de uma fase, mas de um estilo.


Luís Onofre
“Para a primavera/verão 2027, Luís Onofre apresenta CHROMATIC TENSION, uma celebração da cor, do contraste e da forma. Azuis intensos, néon turquesa e amarelos luminosos encontram combinações de vinho, vermelho e laranja, em diálogo com a pureza gráfica do preto e branco.”
Vocês sabem que eu resisto sempre a comentar as coleções de Luís Onofre, por não saber fazer um sapato e por a minha experiência como utilizadora de sapatos ser muito condicionada pela minha deficiência física. Portanto, saltos altos estão fora de questão, mas quando aqueles kitten heels escarlates me apareceram — ai, se sonhei acordada.
E a minha viagem pela imaginação não terminou por aí, já que certos pares de sapatos me transportaram directamente para as minhas séries favoritas ambientadas nos anos 40. Lindos.


Valentim Quaresma
“E se o futuro não for um lugar para onde caminhamos, mas o reflexo daquilo que estamos a construir hoje?
DISTOPIA nasce de uma visão inquietante de um mundo onde a individualidade é progressivamente substituída pela uniformização.
(…)
Quando tudo à nossa volta tenta definir quem somos, vestir-se pode tornar-se um ato de resistência (…)”
Valentim Quaresma transporta a sua joalharia escultórica, de forma expressiva nesta estação, para o tecido — nervurados, drapeados, manipulados… O sentimento que nos é verdadeiramente transmitido? Que estes seriam os nossos uniformes/armaduras para sobreviver ao apocalipse… Quer dizer temos de ultrapassar a distopia do agora.


2B
“Para a 2B The Brand, o Neo-Romantismo é mais do que uma estética: é uma filosofia. Uma visão contemporânea onde emoção, mistério, individualidade e liberdade se encontram. A marca não segue estações fixas; cria uma Moda guiada pelas emoções, pensada para ser vivida livremente.”
2B é a marca da cantora pop portuguesa Bárbara Bandeira e, foi a maior surpresa desta fashion week. A marca e a cantora souberam fazer o correcto balanço da coleção anterior e melhorar exponencialmente. Ao ver a coleção na passerelle, a ideia preconcebida de “marca de celebridade” dissipou-se por completo.
Admiro o percurso de Bárbara como cantora, ainda que não vos saiba falar muito sobre a sua música (ouço rádio, porque gosto de ter companhia e porque sou extremamente preguiçosa a fazer playlist), sobre a sua Moda posso dizer que evoluiu.
Não foi só mudar mudar o designer/ director criativo, ao pisar a passerelle não só na companhia do novo designer, mas também com as modistas que fizeram a coleção; Bárbara Bandeira não está a imitar Pierpaolo Piccioli. Está a afirmar que assume a evolução técnica de que a Collection I precisava.


Dino Alves
“A coleção primavera/verão 2027 nasce da ideia de que a roupa pode ser uma forma de escrita, onde cada peça se transforma em linguagem, como se em cada coordenado pudéssemos ler um poema, um verso, uma palavra.
A coleção não pretende ilustrar a poesia, mas sim habitá-la. Não conta uma história linear e, tal como um poema não precisa de explicar tudo, (…).”
O que é que eu mais admiro no Dino Alves? A sua imensa inteligência. Porque só um designer imensamente inteligente consegue fazer de um desfile um verdadeiro show, ao mesmo tempo que, se olharmos com um pouco de atenção, vemos que as peças estão prontas, sem ., para fecharem o ciclo da Moda ao serem compradas.
O Dino Alves voltou a fechar mais uma edição da ModaLisboa com a chave da celebração e do entusiasmo? Sim, sem dúvida que sim! E, no final, por entre pozinhos mágicos, lembrou-nos que, por mais que passem os anos, será sempre o enfant terrible da Moda portuguesa.
Muitos designers falam de resistência, muitos a praticam. Mas ao fazer dos designers PRIORITY, desde o seu primeiro dia, a ModaLisboa tornou-se sinónimo de persistência, resiliência e da própria resistência.
Até voltarmos aqui, porque o círculo da Moda é, na verdade, uma cadeia infinita de círculos, lembremo-nos de que devemos: dar prioridade à Moda independente; resistir e persistir naquilo que é a nossa identidade; e não esquecer que mesmo que não concordemos em tudo a Moda precisa de diálogo.
Até breve!
Com amor,
Vera Lúcia


