Instruções para o uso deste ensaio:
Podes ler o artigo do início ao fim, só algumas partes ou pela ordem que quiseres.
Aviso I: As citações que se encontram em cada secção provêm das memórias descritivas dos designers, que podem ser lidas na íntegra no site oficial da Associação ModaLisboa, tanto em português como em inglês.
Aviso II: O que podes ler para lá das citações são perspectivas minhas, não necessariamente factos. Trata-se de opiniões que advêm de ter assistido aos desfiles de apresentação de cada coleção; de acompanhar o trabalho de muitos destes designers desde o seu início ou noutros casos há mais de 15 anos; e de ter feito o meu Mestrado e Licenciatura em Design de Moda.
Dia 3
Sangue Novo
É muito difícil comentar o trabalho dos designers que estão a dar os seus primeiros passos.
Posso ter visto praticamente todos os desfiles Sangue Novo desde o seu regresso — o concurso regressou em Outubro de 2013 e se a memória não me falha eu só comecei a assistir a este desfile/ concurso em Outubro de 2024 — mas ainda tenho muita Moda para ver e entender, até conseguir, plenamente, articular a minha visão de que efectivamente as coleções que se sagraram finalistas eram as mais merecedoras de o ser.
Porque não se trata dos designers em si, mas das coleções. A persistência quase obsessiva é o que torna a Moda Independente possível.
A nível pessoal, a persistência e a resiliência de Élio, voltando a concorrer ao Sangue Novo, é algo que muito admiro e que me deixa muito orgulhosa de ter acompanhado o seu trabalho desde o início.
Sagraram-se também finalistas as coleções de Francisco Martinho, Granatum, Marta Amorim e Ronni. Na próxima edição da Lisboa Fashion Week serão atribuídos quatro prémios: dois Prémios ModaLisboa x IED - Istituto Europeo di Design — duas bolsas para os cursos de verão Fashion Trend Forecasting and Styling e Fashion Brand Management, e uma bolsa de 2 000€ para cada bolseiro; Prémio ModaLisboa x Burel Factory — tal como ganhou Ariana Orrico na edição Pebbling; e o Prémio ModaLisboa x Showpress — “Assessoria de imprensa e showroom na agência de imprensa e relações públicas, Showpress, durante uma estação.”




Albert Porta
“BRANCO é um caminho na noite percorrido por seis figuras brancas. A Bruxo, E Alfaiate, I Maria, O Jokerman, U Angelus, e o Artista. Estas seis personagens devem ser interpretadas como uma sucessão de sinais numa única página”
Alexandra Sousa
“EXTENDED explora o vestuário como uma extensão do corpo, introduzindo elementos como cabelo, pele, textura, estrutura e deformação. As peças tornam-se uma segunda camada corporal, simultaneamente protetora e expressiva”
Catarina Pica
“DIÁFANA entende a sustentabilidade como a coexistência de diferentes materiais, formas de fazer e temporalidades. Reúne matérias que envelhecem (…), desde biomateriais Do-It-Yourself (…) A base técnica assenta numa produção artesanal lenta, desenvolvida pela Designer, complementada por materiais e processos industriais.”
Elio
“LOSER nasce de um momento em que o Designer percebeu como lhe era difícil admitir o fracasso. A sua primeira reação foi fingir que estava tudo bem. (…) LOSER fala sobre tudo aquilo que o Designer aprendeu a esconder para continuar a ser visto como forte.”
Francisco Martinho
“TEMPO: ORGÂNICO | MECÂNICO (…)
Questiona: o ritmo mecânico, rígido, acelerado e exploratório que o capitalismo nos faz acreditar ser a verdadeira forma de evolução.
Sugere: a necessidade de um ritmo mais orgânico, fluido e pausado, que nasce de dentro e representa aquilo que é mais essencialmente humano, interrompendo essa lógica mecanizada.”
Granatum
“ESPINHO 00 parte da relação da Designer com a cidade onde cresceu e da forma como aprendeu a olhar para ela. Uma cidade voltada para o mar, marcada por aquilo que este trouxe, levou e deixou para trás. Entre memória pessoal e coletiva, a coleção olha para a arte xávega (…) os vestígios de uma cidade que também permanecem na Designer.”
João Pecuro
“THE LAST TIME I HELD A BALLOON surge da nostalgia pela infância e da forma como as suas memórias resistem à passagem do tempo. (…) a coleção combina ecos da infância com vislumbres da velhice, abraçando o processo de envelhecimento sem deixar que este nos impeça de reencontrar a nossa criança interior, (…)”
Marta Amorim
“A coleção X1: EXPERIÊNCIA 1 parte dos princípios de Bruno Munari para questionar o papel do objeto no quotidiano. (…) Cada coordenado representa uma cápsula concebida através de sistemas modulares ou da manipulação de um único molde, utilizando materiais técnicos adequados à sua função.”
Matheus Dauzaker
“METAMORFOSE explora a transformação como princípio criativo através de uma estética sombria e de uma abordagem experimental ao vestuário. (…) As peças recusam uma leitura imediata (…).”
Ronni
“D E V I R é um ato de transformação contínua, uma recusa de identidades fixas. Existe entre o que fomos, o que somos e o que seremos.”


Ariana Orrico
“MUI SNOB E SEMPRE DESLEAL, uma contradição literal à bandeira de Lisboa, que se intitula “mui nobre e sempre leal”.
Esta coleção explora uma relação de intimidade entre o indivíduo e a cidade. Fala do conforto que nasce quando deixamos cair as ilusões e as expectativas. Fala de estendermos os metros quadrados da nossa casa pelas ruas da cidade.”
Ariana Orrico é uma powerhouse. Se ao acompanharmos o desenvolvimento da sua linguagem e identidade visuais desde a sua primeira coleção, a de final de primeiro ano do Mestrado em Design, pensámos que já tínhamos descodificado a sua fórmula mágica, estávamos completamente enganados.
O burel, da Burel Factory, deu a Ariana pluralidade, mostrou-nos como sabe bem trabalhar a cor e os seus contrastes. Ao Burel, Ariana deu muito ‘swag’. Viram bem o casaco do look 3? EU QUERO!
Pronto, já recuperei a compostura. Esta coleção deve-se não só ao talento de Ariana, mas também ao facto de na estação passada ter ganho o prémio ModaLisboa x Burel Factory do concurso Sangue Novo. O que incluía: uma bolsa de 1 000€; um estágio de um mês na Burel Factory; mentoria da equipa e a possibilidade de usar materiais da empresa para o desenvolvimento desta coleção; e a apresentação desta coleção de que agora falamos na plataforma Workstation da ModaLisboa.


Francisca Nabinho
“Esta coleção parte da ideia de construir lentamente, através da acumulação de pequenos elementos. O pontilhismo, em particular as obras de Georges Seurat, Um Banho em Asnières e Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, tornou-se uma referência importante pela forma como uma imagem é construída através da repetição de inúmeros pontos de cor.”
Francisca Nabinho, como marca, cresceu e apresentou uma coleção com maturidade. Não deixando a estética girly com laivos sonhadores em tons pastel. Introduz na sua coleção a técnica de trompe-l’œil, como o motivo de um colar no vestido do look 15 e que é particularmente interessante depois da colaboração que fez na coleção passada com a Joalharia do Carmo.
Penso que as raparigas da squad Francisca Nabinho, que vão crescendo com a marca, encontraram o seu estilo ponto por ponto, já que era disso que tratava a coleção passada, dessa descoberta. Os tules das saias propostas para o Inverno renascem agora como textura estampada, num trompe-l’œil muito inteligente.
À medida que se cresce a ingenuidade desvanece, mas a celebração e a doçura permanecem.
(Parte do) Dia 4

Carlos Gil
“A coleção nasce daquilo que cada cultura deixa: a cor, a matéria, o padrão, os gestos artesanais, a arquitetura e os detalhes que tornam cada lugar único. São referências recolhidas ao longo de uma viagem pelo mundo e transportadas para o mundo real, reinterpretadas pelo olhar de Carlos Gil.”
Carlos Gil apresentou uma coleção num desfile com 200 lugares abertos ao público, no exterior do MUDE - Museu do Design. Esta foi composta por vários núcleos de cor, desde o preto, o fúcsia, o azul pastel e muito mais. Transmite-nos um ambiente de festa em looks com lantejoulas e aplicações de vidrilhos sob transparências.
Para lá das inspirações no universo de viagens e de diversas paragens, interpretei a existência de referências que homenageiam o saber fazer de uma peça de Moda de autor, tendo em alguns looks, como no look 16, a representação do fitilho marcando as linhas-base do manequim de costura.
Uma coleção na qual se sentiu a génese do designer, ainda que num leque de versatilidade.


Mestre Studio
“A casa da avó surge como um dos lugares centrais dessa infância. Foi ali que cresceu, descobriu as suas paixões e começou, ainda sem perceber, a imaginar aquilo que um dia gostaria de ser.”
Houve um momento de Moda tão forte no final do desfile: os manequins desfilaram ao som de “Pedra Filosofal” de António Gedeão, poema musicado que termina assim: “[versos de “Pedra Filosofal”: colar aqui]”
As malhas desta coleção aparentam o conforto e o aconchego de casa. Não falo tanto das questões formais, de silhueta ou de materiais por exemplo, das propostas apresentadas por Diogo Mestre porque a meu ver muitas vezes a mensagem se sobrepõe às peças em si e isso é um indicador muito positivo do trabalho do jovem designer.
Ainda mais depois de uma versão deste poema se ter tornado um dos hinos do movimento pela habitação, no nosso país, pela voz de Ana Moura. Tudo junto, traz uma leitura mais ampla aos “Sonhos de Menino” de Mestre Studio.


Arndes
“IRREAL SOCIAL é uma coleção que explora a tensão entre quem somos e aquilo que aprendemos a representar para sermos aceites.”
Arndes cresce ao seu ritmo, sem pressas e da forma que acredito ser a mais sustentável para a continuidade da marca de Ana Rita Sousa. A designer não se perde na sua própria fórmula: a desconstrução da alfaiataria está lá como base, mas temos de estar mais atentos do que até agora.
Por exemplo, o look 7, se o virmos de forma distraída, aparenta ser mais um little black dress, mas olhando com atenção, o direito é na verdade o seu avesso — o seu interior é o seu exterior.
Ana Rita traz-nos como novidades muito interessantes ao seu léxico: as transparências; os detalhes de bordado inglês e os collants de rede. No universo Arndes este tipo de collants são empoderamento e jamais algo pejorativo.
E tenho que admitir que a saia vermelha, a do look 10, é, para mim, um total e absoluto objecto de desejo.
Conta-me, achas que este formato de ensaio funciona? Que opiniões tens do que viste, do que mostrei, do que contei?
Até breve!
(Sim, isto dá-te uma pista de quando virá o próximo ensaio.)
Com amor,
Vera Lúcia




