
Hoje falamos de três Semanas de Moda distintas - a Mercedes Benz Fashion Week Madrid; a New York Fashion Week e a Copenhagen Fashion Week. E porquê falarmos de semanas de Moda tão dispares? As razões são várias e diversas.
Pode pensar-se que as palavras dos designers e das marcas é o caminho mais fácil, não é bem essa a intenção. Se há uns anos atrás, muito do que se escrevia sobre Moda era com base nas memórias criativas dos criadores de Moda, actualmente, a excessiva intelectualização da Moda por um lado (numa escala não assim tão grande) e, em grande escala a rapidez das imagens velozes de plataformas como o Tik Tok… Onde ficam as ideias originais dos designers depois de interpretadas e reinterpretadas uma e outra vez?
É esta a ideia de dedicar algumas palavras a mais de 40 designers de três semanas de Moda tão distintas num único ensaio partiu da minha reação face aos actos de violência do ex-CEO CFDA Steven Kolb para com os manifestantes da PETA no desfile da COS. Para lá de tais acções não terem espaço na Moda, tais acções repercutem-se no ofuscar o trabalho e a voz criativa dos próprios designers.
Para lá da representação digital de ditos designers no suposto site oficial NYFW — The Shows, digamos que podia ser mais próxima à das organizações europeias. Já que toda a informação dos designers que participaram tanto na Semana de Moda de Madrid como na Semana de Moda de Copenhaga podem ser facilmente encontrados nos respectivos sites oficiais dos eventos.
Mas porque falo agora de Madrid e da sua Mercedes Benz Fashion Week, porque aparentemente, esta estação o legado da Passarela Cibeles renasceu. Devendo-se tal renascimento à Fórmula 1 e ao “The Front Row” by Substack España. Sendo a MBFW organizada pela IFEMA, o evento não decorreu nos pavilhões da Instituição de Feiras de Madrid, agora ocupados pela etapa madrilena da F1. Pelo que os desfiles e apresentações ganharam o pulsar vital de diversas localizações da cidade.
E, ao ser a primeira semana de Moda ter um programa de colaboração oficial com o Substack, passa a ter maior cobertura de vozes independentes, o que lhe acaba por conferir ao evento espanhol um carácter pioneiro, neste espaço digital em expansão.
Já não é a primeira vez que vos falo da Semana de Moda da capital dinamarquesa, mas desta vez mais pessoal, mais emocional. Já que foi para mim uma honra ser convidada por um membro da comunidade TFS e estudante da The Swedish School of Textiles me ter convidado para o desfile na CPFW. Como não pude estar presente, esta é de certo modo o meu tributo.
Cá vamos nós, partindo da semana que aconteceu mais recentemente…
Mercedes Benz Fashion Week Madrid
Pedro del Hierro partiu da tradição japonesa de assistir ao florescer das cerejeiras e desconstruiu o kimono para chegar à colecção HANNAHI,
Palomo Spain, em Espanha, a marca é conhecida somente como Palomo e internacionalmente como Palomo Spain. O conceito da sua colecção é partilhado por poucas nas suas redes sociais. Fala-nos de Arcadia — a escuridão do jardim antes do amanhecer como celebração da liberdade do décimo aniversário da marca.

Lola Casademunt by Maite fala-nos de uma mulher cliente tipo que viaja de um lado para outro da cidade, cidade na qual existem pausas infinitas daí o nome dado às propostas que a marca apresenta “City Oasis”.
Adolfo Dominguez apela a que reflectamos para a forma como olhamos para o mundo, numa colecção onde a pesquisa começa com o questionamento da cor e luz.
Moisés Nieto o filho pródigo volta à Semana de Moda de Madrid, o designer andaluz fala-nos e retrata a sua Andaluzia que trata muito mais de Lorca e das pinturas de Julio Romero de Torres do que de folclore.
Acromatyx não tem um conceito externo — o conceito e a própria colecção começam com o corpo e a reinvenção de moldes já usados pela marca em coleções anteriores. Um corpo que se vê restrito por silhuetas cingidas ou expandido por silhuetas volumosas.
Isabel Sanchis oscila por entre uma homenagem feminista às calças bloomers e a reinterpretação do espartilho.
Custo Barcelona como propósito a leveza visual, quase celestial, seguem-se os códigos da casa como veículo de auto-expressão para quem veste.
Redondo Brand uma descrição mais técnica do que conceptual, querendo variedade e contraste de texturas e formas. Assumindo as cores usadas: vermelho, rosa, branco, preto, dourado, azul Klein e laranja — como temas-chave da própria colecção.
Calaaf mais uma vez os jardim, mas desta vez dialoga com a artificialidade, a decadência, romantismo com laivos de realidade nua e crua. Não sendo o objectivo a representação real de um jardim.

Alvarno reinterpreta o vestir “à la española” do século XV, tendo como motivo principal “The Light of Madrid, The Spirit of Paris” como o que chama de barroco minimalista.
Antonio del Canto foca olhar naquele que considera ser um altar do dia-a-dia - o toucador. O eu interior apresenta-se ao exterior e é exactamente de preparação de nos vestirmos que inspira o designer.
Celia B Designer interpreta “Indian Summer” como os últimos dias de calor do Verão, ao mesmo tempo que regressa às suas origens nas Astúrias, inspirando-se nos “índios” asturianos.
Juan Vidal apresenta “Segundo Edén”, havendo pouca informação disponível sobre a sua memória descrita, conclui-se que se trata da continuidade do conceito da colecção anterior — “Edén”. Inspirado por uma viagem a Istambul, por entre ideias de modéstia e pecado.
New York Fashion Week
Carolina Herrera no seu site oficial fala-nos desta colecção como a materialização do universo da marca e da mulher CH para as novas gerações.
Thom Browne queria brincar, não queria que a colecção muito sério, assim tal como para a mais recente colecção menswear partiu do filme de animação da Pixar A Bug’s Life.
Parsons MFA, as coleções dos estudantes cujas inspirações vão desde as mulheres tidas como assustadoras, mas na verdade eram decidas sobre si mesmas a pioneiros da “Black culture”.
Libertine a marca do designer que se orgulha de não saber costurar nem saber confeccionar uma peça de roupa estabeleceu como objectivo, desta colecção face às anteriores, o progresso.

Bibhu Mohapatra continua a inspira-se na Marchesa Luisa Casati, que segundo a designer , acredita que cada dia era uma obra de arte. A esta inspiração junta-se um outro amor da designer — as traças.
Michael Kors — diversas referências artísticas de metade do século passado, uma série de eventos quotidianos e o desejo de criar algo que salte à vista.
Prabal Gurung não conseguia parar de pensar em liberdade e, à liberdade juntou-se o conceito de pessoas de universos opostos a partilharam o mesmo espaço e a passarem um bom bocado.
Magda Butrym empatiza com a experiência da pioneira artista polaca Natalia LL, que fora para Nova Iorque para desenvolver a sua arte, lutando pela presença das mulheres na arte, não tendo quaisquer facilidades na Big Apple, desta empatia nasce a colecção para a próxima primavera.
Altazarra teve como ponto de partida um álbum de fotografias de meados do século passado onde figuravam homens vestidos de mulher. Assim criou uma colecção que deseja que para além de evocado de liberdade, fosse alegre.
Christian Siriano cria uma colecção em torno do conto francês “A rainha das Ilhas Floridas”, que aborda temáticas de vaidade, vingança e rivalidade.
Sandy Liang rêve-se no styling da sua própria colecção, que queria fosse tão feminina como hyper sporty e na qual existe um regresso à realidade sem perder a magia.
Ralph Lauren segundo o próprio a colecção trata da liberdade e diversão de criar o próprio estilo, um estilo verdadeiramente pessoal.

Laquan Smith perspectiva as vidas das mulheres, não só num momento do dia como fizera anteriormente, mas ao longo das 24 horas do dia.
Copenhagen Fashion Week
Caro Editions cria um Club noturno para homenagear as peças que ficam connosco para lá da noite acabar. Somos assim convidados para o Caro Club.
Nicklas Skovgaard inspirado pelas girl bands da década de 1960s como The Supremes, The Shangri-Las, e The Ronettes, apresenta The Skovgaardettes. Colecção que se desdobra em diversos guarda-roupas miniaturas.
Iamisigo dá à sua colecção o nome de “Sacred Ecologies”, sendo uma extensão do seu questionamento da peça têxtil como registo vivo e do corpo lugar de transformação.
The Swedish School of Textiles, um grupo de 22 recém graduados sobre o que significa dar os primeiros passos nestes tempo que vivemos de incerteza económica e grandes avanços tecnologias. Uma apresentação onde cada aluno se expressa individualmente.
Gestuz reflecte sobre os actos que as mulheres praticam não por produtivo, mas por prazer próprio, a ideia de se auto - documentar como forma de autoria, a isto aliam-se vibes dos anos ’70.
Paolina Russo - heroínas e musas aliam-se à ideia e tomada de consciência de que tudo é possível. Ao mesmo tempo, ao longo do processo criativo todo conta como artefacto de inspiração, como por exemplo um guardanapo.

By Marlene Birger explora antecipação do Verão que se vive durante o Inverno, tornando o Sol, como elemento simbólico de optimismo e renovação, o coração da colecção.
Institution by Galib Grassanoff tem como ponto de partida uma palavra em azerbaijano de onde o designer é natural. Yad que tanto pode significar: estranho, estrangeiro, memória ou lembrar.
Studio Constance brinca com expressões emocionais e transpõe para colecção as experiências mais recentes da designer — de transformação de corpo e mente.
Mr Larkin desfila pela primeira vez na CPFW e fá-lo com a colecção “Lucky”, que não trata só de sorte, mas também de resiliência, longevidade, gratidão e peças individualistas.
Masculina intitulou a sua colecção de “Dolls Parts”, que retrata a experiência das mulheres transexuais, com vista a se integrarem em segurança na sociedade. Para a Primavera/ Verão 2027 investiga aquilo que as restringe e aquilo que as permite afirmarem-se.
Scandinavian Academy of Fashion Design — 27 designers reflectem sobre problemas sociais, ao mesmo tempo que cada um explora diferentes técnicas de manipulação têxtil e, deixa transparecer as aprendizagens dos respectivos estágios.
OperaSport apresenta Growth, crescimento tanto natural como intencional, tendo como ponto de partida o parque natural de Copenhaga Carl Jacobsens Have.
Sim, podem dizer porque é verdade que este é um ensaio de curadoria, ainda que muitas sejam as vozes criticas, ultimamente, nas redes sociais, sobre a prática de curadoria.
No entanto, espero que gostes desta versão TFS.
Até para a semana!
Com amor,
Vera Lúcia



