Book Stack #2: “Chanel Inc”

Bem-vindos ao segundo fascículo do Book stack estival do The Fashion Standup. Se na primeira edição, a protagonista foi um livro sobre o trabalho e legado de uma mulher que deviam ser mais falados, naquelas que são as constantes conversas que a Moda tem — aqui temos em certa medida o inverso.
Como? O livro de hoje conta uma história distinta, bastante distinta daquilo que se tornou um mito, o conto de fadas de… Coco Chanel. Chanel Inc. questiona o mito que nos tem vindo a ser contado ao longo do último meio século, o mito da empresa Chanel, mas que em muito se interliga com a sua fundadora e as estórias que dela se contam.
Lembro-te que para poderes aceder às próximas edições do book stack do TFS deves tornar-te subscritor pago por 5€ mensais ou 50€ anuais.
Este livro já estava na minha secretária há muito, mas demorei bastante a aceitar a ideia de que este não era um livro sobre o qual devesse falar de viva voz, precisava de escrita — da ponderação e desenvolvimento das palavras. Ainda que tenha feito teasers no Instagram e numa Note de Substack do livro com os meus microfones vermelhos…

O livro auto-publicado pelo investigador, YouTuber, criador de conteúdos de Moda anónimo, conhecido por understitch, questiona a narrativa que nos tem sido dada de forma rigorosa e ponderada — longe de ser mero gossip. Portanto, há que fazer o disclaimer, em termos de segurança legal ou algo similar, devo reforçar que aqui o que vou contar se baseia no livro protagonista deste book stack.
Claro que quero que compres o livro, não por ter um link afiliado a tal, mas para que retires as tuas conclusões, para lá de ficares a conhecer as minhas perspectivas em seguida.
Sempre admirei Coco Chanel e, sim, esse é o maior cliché de um estudante de Design de Moda — mas como boa escorpião eu tenho uma coleção de livros biográficos de Chanel, pedi favores para que trouxessem o livro traduzido “Dormindo com o inimigo — A Guerra Secreta de Coco Chanel” (2011) de Hal Vaughan, do Brasil, quando o li não devia ter mais de 12 anos.
Ainda assim mantive o meu fascínio por Chanel, talvez não tão fervoroso. No entanto, acreditava que o amor de mãe que teria pelo seu sobrinho seria o motor das suas ações mais condenáveis. Poderia dizer que essa é a ingenuidade de uma pré-adolescente, no entanto, a perspectiva dada pela série “The New Look” (2024), da Apple TV em estreita colaboração com a casa Dior, é similar.

Não sei se a minha admiração por Gabrielle Bonheur Chanel ficou intacta, é uma parte inconsciente de mim à qual ainda não acedi. Lembro-me vividamente da emoção de visitar a exposição “Picasso/ Chanel”, em Janeiro de 2023, no Museu Thyssen-Bornemisza em Madrid. Essa emoção devia-se à ideia de que estava perante peças confeccionadas pela própria Chanel.
Mas seriam mesmo? Agora ponho a dúvida já que o autor do livro afirma, com as devidas referências aos factos, que aquilo que acreditamos sobre a pessoa de Chanel foi uma mentira fabricada com cuidado e muito bem contada após a sua morte. Ou seja, um enorme conjunto de fake news com mais de 50 anos.
Seria mais fácil e mais cómodo acreditar ou creditar “Chanel Inc.” como tal como sendo o recipiente de fake news. No entanto, como designer de Moda que investiga e documenta sei reconhecer uma boa investigação, feita por um jornalista. Sendo que, para dar contexto, há que dizer que ambas as disciplinas, o Design e o Jornalismo, têm na sua génese a investigação — a materialização, objectivos, metodologias e processos diferem.
Na exposição que vos mencionei podia ver-se uma enorme fotografia das mãos de Chanel, mais um detalhe que está em linha com a narrativa contada e recontada uma e outra vez. Em contraste, isto é o que se pode ler por entre as páginas do nosso protagonista:
“Chanel não era na verdade uma designer, nem era chapeleira, nem costureira. Mas apercebeu-se cedo no seu percurso que poderia vender chapéus ao mesmo preço que os outros chapeleiros usando menos materiais, aumentando a sua margem de margem de lucro. Esta é uma táctica que mais tarde a própria fisicamente anotaria numa das pouquíssimas anotações que alguma vez escrevera já que era praticamente analfabeta. […] Muito daquilo que acreditamos ser saber, hoje em dia, sobre Chanel fundamentalmente não é verdade e é na sua maioria construído após a sua morte. A verdade é que Chanel era nenhuma grande artesã; não pretendeu sê-lo, invés disso encarara a sua marca como empresária.”
Em diversos filmes, documentários e publicações diversas conta-se, entre muitas coisas que nos fazem acreditar que estamos perante um ser prodigioso, que Chanel teve sucesso meteórico. Algo que, na minha opinião, criou ou contribuiu para a ideia que muitos recém-licenciados em Design de Moda de que criar uma marca própria é fácil. Julgando assim que estão a falhar caso as suas etiquetas homónimas não alcancem o sucesso num curto espaço de tempo.

Bem, há que dizer que a marca Chanel deu pelo menos 5 anos de prejuízo, antes de gerar um único franco. Não obstante, o seu adorado Boy Capel tinha dinheiro suficiente para continuar a financiar a marca de Coco.
Muito do que fazia era simples, não por filosofia visionária, mas porque as suas parcas competências técnicas não lhe permitiam maior complexidade.
Há que dizer também que não libertou as mulheres do espartilho, Chanel inclusivamente chegou a vendê-los. Também não era propriamente feminista já que como chefe ignorava sistematicamente as greves das suas funcionárias e as suas reclamações, considerando-as ataques pessoais.
Não obstante, o consenso de que as redes sociais são o grande veículo de propagação de fake news, no contexto do livro que aqui falamos, tomamos conhecimento que as maiores fake news da História da Moda nasceram da rivalidade entre Harper’s Bazaar e a Vogue.

Publicações que a propósito do regresso de Chanel à passerelle, no início de 1954, deram várias páginas de destaque a Coco. Carmel Snow, editora-chefe da Harper’s Bazaar, deu-lhe seis páginas centrais, a Vogue responderia com dez páginas. No conjunto desta operação é creditado a Chanel: o libertar a mulher do espartilho; a invenção (e não popularização) para o guarda-roupa feminino da Marinière e do Little Black Dress. E assim, se altera a História da Moda.
Tudo isto é só a ponta do icebergue de uma densa obra de investigação, mas intelectualmente muito prazerosa. Materialização de um movimento e zeitgeist de liberdade e independência na escrita e estudos de Moda. Feitos fora das academias e debaixo do grande chapéu da criação de conteúdo para lá da imagem desse mesmo “creator” — o que muitos chamam de fenómeno dos “intelectual influencers”.

Desafiando assim, os pressupostos de narrativa e credibilidade, sendo um livro deste género auto-publicado um exemplo de um trabalho de missão e provando que há muito, muitíssimo ainda por ser contado e escrito sobre Moda — tanto em papel, na World Wide Web ou, numa ou diversas “corners of the internet”.
Suficientemente curiosos? Boas leituras!
Ah, e a propósito, já conhecias o trabalho de understitch,? Ou tal como eu, o primeiro contacto que tiveste com o seu trabalho foi este magnífico livro? Partilha nos comentários, aquele que consideres ser um highlight do trabalho de understitch, .
Até para a semana!
Com amor,
Vera Lúcia


